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03/04/2011We are angry - Dayse de Vasconcelos Mayer
03/04/2011
Publicado no Jornal do Commercio - 03.04.2011
dayse@hotlink.com.br
Os portugueses estão zangados. Muitíssimo zangados. Por isso já aderiram às grandes manifestações de rua. E agora não desejam parar. Seguem em frente. Na quinta última, no Rossio, jovens entre 16 e 18 anos portavam cartazes com diferentes acusações. Numa delas lia-se: “Meu pai abusa de mim desde os 9 anos”.
Anteriormente, num dia de sábado, 300 mil jovens com denominações várias: geração à rasca, geração de enrascados, jovens precários, pilotos sem naus, arrendatários do inferno... Aproveitaram a manhã ensolarada – embora fria – para uma reivindicação. Esta era a palavra-chave. Encontraram apoio na exortação do próprio presidente Cavaco Silva, que havia tomado posse na semana para um segundo mandato. Há muito o governante tinha ciência de que os jovens recém-saídos das universidades atingiram o auge ou clímax em matéria de frustração. Cada ano letivo representava a repetição da mesma pergunta: E agora, José?
Desde 2010 em cada 12 diplomados de universidades portuguesas, três estão saindo do País em busca de melhores condições de vida e o percentual tende a crescer. O desemprego já atingiu a cifra de 12% no último semestre de 2010 e os salários foram reduzidos em 20%. E isso agudiza-se no grupo dos profissionais mais qualificados. Assemelhando-se ao Brasil, as entidades que custeiam os estudos no campo do mestrado, doutorado e pós-doutorado estão conscientes de que estão deitando recursos na lixeira. O mercado não absorve a formação especializada, notadamente no campo da engenharia naval, arquitetura, psicologia, topografia, letras, etc.
Alguns críticos admitem que os universitários estão sendo empurrados para a profissão de afundadores de barcos e geradores de blogs com escrita maldizente.
Ilustra-se a observação apelando para o Censo de 2011: 34% dos 50 mil candidatos inquiridos pelos recenseadores têm formação superior e estão vivendo à custa dos pais. Por certo, as universidades padecem da enfermidade mórbida do sistema ou são cúmplices do governo atual. Em tudo isso há uma pergunta que jamais é respondida: o que estão fazendo os partidos políticos? Que propostas apresentam? De que lado estão?
No campo “movimento social” o que se observa é uma quase expectativa das agremiações partidárias. Ainda não sabem o que devem fazer. O que há de comum em todos eles – e nisso não diferem do Brasil é que são capazes de dizer uma coisa hoje e outra amanhã. E tudo sem constrangimentos. Estão sempre com a razão, o mundo é que está errado. A conclusão geral é que pretendem levar o povo ao abismo. Cada um constrói a sua arca de Noé na tentativa de sobrevivência. O CDS, por exemplo – partido de centro-direita –, lançou, após a grande passeata realizada no sábado, algumas propostas no plano do emprego, renda, habitação, impostos, segurança e educação. Nada de novo no front. Após o caudaloso rio de empréstimos bancários que levou a classe média à bancarrota, a ideia do CDS é barrar o fluxo optando pelas locações de imóveis. Igualmente, a substituição do emprego estável pela flexibilidade nas contratações, tomando por base a decantada meritocracia. O certo é que os partidos – e isso é algo comum aos novos tempos – estão sem propostas, sem ideologias, sem imaginação e sem fôlego ético. Nenhum deles ousa propor medidas que afetem o seu próprio status, mexam com a Justiça caótica, com o sistema eleitoral canhestro e com o grau ruinoso de proteção social.
Enquanto isso, os jovens portugueses estão mesmo encolerizados ou espinhados. Mas ainda não perceberam que uma manifestação de rua não tem o condão de alterar o sistema. Boa parte vive do mercado informal ou recebe salários com os famosos recibos verdes (empregos precários). Desejam o fim desse tipo de corrupção – e de outras. A maioria não é filiada a partidos, é oriunda da classe média e possui uma página no Facebook. É muito pouco para a inversão do sistema ou para acordar a opinião pública da sua atual letargia, avivar as consciências e participar das grandes soluções políticas. Os brasileiros já conhecem em reprise este filme e percebem ou compreendem demasiado o enredo. Mas não custa tentar. Até porque pode dar certo, o que duvido muito.
