Vida de concurseiro - Orlando Morais Neto

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03/06/2009

Vida de concurseiro - Orlando Morais Neto

03/06/2009
Vida de concurseiro - Orlando Morais Neto
Publicado no Diario de Pernambuco - 03.06.2009
 
omoraisneto@hotmail.com

Lembro-me bem que, aos 17 anos de idade, em pleno terceiro ano científico, ao proclamar aos quatro cantos do mundo que iria enfrentar o momento mais complicado de minha vida, ou seja, o vestibular, minha doce avó Mabel, com sua experiência acumulada, rebatia meu inocente pensamento adolescente, ao argumento de que esta "peneira" era apenas um degrau de responsabilidade necessário para o meu crescimento, porém, não o mais difícil. Confesso que tais palavras, por um bom tempo, eram motivo de dúvida, tendo em vista acreditar, piamente, que "ela" não tinha noção exata do turbulento acontecimento que iria viver ao final do ano. O meu problema era sim o maior do mundo! Por mais que duvidasse, o vestibular passou e minha aprovação decorreu tranquilamente, me fazendo recordar da situação de pânico desnecessário que tinha ao tomar vacina de gotinha. Os anos de faculdade foram transcorridos na maior paz e amor, com exceção de umas poucas "lendas" da Unicap, taiscomo Prof. Armando, Prof. Gilvandro e Prof. Jales. Tudo era alegria e diversão! Até a elaboração das razões para faltar ao estágio, na tarde da sexta-feira, que demandava sempre uma maior cautela e especificidade, era motivo de felicidade.

O tempo passou e os ensinamentos de minha segunda mãe começaram a tomar forma. Iria enfrentar, agora sim, uma batalha dura e psíquica. Concurso público para a maioria dos seres humanos normais mostra-se como uma fase incrivelmente complexa. Primeiramente, vale observar que quase todos os concurseiros encontram-se em estado de completo "liseu" (sem um pau pra dar no gato!), apesar de já estarem com mais de 22 anos, o que gera uma absurda sensação de impotência. Sinceramente, é muito chato pedir, com 25 anos, dinheiro para tomar até uma simples cerveja no "Select" do posto! Em segundo lugar, é totalmente doloroso ouvir do seu vizinho, em plena segunda-feira, às oito da manhã, indo para o cursinho, a célebre frase: "E aí! Já passou em algo?". Recordo-me, claramente, de olharno espelho e questionar o funcionamento adequado de meus neurônios.

Num terceiro plano, 99% dos concurseiros acabam por ficar neuróticos com o tempo, tudo é desenvolvido em torno das horas, minutos e segundos. Quantas vezes pensei em não correr no Parque da Jaqueira ou em não ler o jornal, pois iria perder 45 minutos de estudo! A vaidade também é outro aspecto deixado de lado. Quase todos ficam mais desleixados e gordinhos. Tenta ficar em casa estudando o dia todo e não ter vontade de comer besteira! É muito sofrimento! Uma quarta característica é a que vem de seus próprios queridos entes familiares. Para estes, apesar de todo o apoio, o concurseiro, "por não fazer nada", sempre deve ter um tempo livre para trocar uma lâmpada, ir ao banco ou fazer compras. Estudar é mais trabalhoso do que aparenta, ainda mais quando não se ganha mensalmente salário para isto! Outro ponto interessante são as diversas manias e superstições advindas da véspera e do dia da prova.

Quem nunca ficou agoniado por não achar uma camisa especial ou a caneta da sorte no dia "D"? Sinceramente, vida de concurseiro não é fácil! Por fim, amigo concurseiro, não se sinta ignorante, ao sair da prova e se deparar com uma roda de pessoas que estão a comentar a facilidade da prova. Na maioria das vezes, esta congregação de falantes não sabe nada! Tirando toda a visão cômica e real deste texto, digo isto como ex-concurseiro insistente, vale a pena todo o esforço, principalmente, quando se pode responder todos os questionamentos acima com a sensação do dever cumprido. Existe vida pós-concurso! Pense na emoção que é ler "Caras" ou assistir "Vale a pena ver de novo", sem qualquer peso na consciência!

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