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10/02/2011Uma sandália no asfalto - Nilzardo Carneiro Leão
10/02/2011
Publicado na Folha de Pernambuco - 10.02.2011
A violência nas suas mais variadas formas de manifestação passou a fazer parte do nosso cotidiano, embora, às vezes, nos horrorize, quando extrapola todos os limites imagináveis, do homem comum, de qualquer um de nós e é praticada por pessoas que se apresentam normais, um médico, um advogado, um promotor, um político, um estudante bem situado, um motorista, uma pessoa do povo.
Já não nos causa espanto o furto do veículo, a invasão de residências, os assaltos a bancos, ou os sequestros relâmpagos, as colisões de veículos, o motorista morto, o passageiro que termina no hospital ou no necrotério. A onda crescente de crimes - não estamos a falar dos Silveirinhas, do Juiz Nicolau, das organizações criminosas, dos megafraudadores, dos mensalões, dos sangue-sugas, - faz crescer o temor das ruas, o medo de sair à noite, de andar só, de usar um relógio ou uma joia, de respeitar sinais de trânsito.
O corpo lançado na calçada com crianças à volta banalizando a morte violenta, aparece já como o cotidiano de nosso tempo e isso é péssimo, por mostrar o embrutecimento do homem frente a tragédias que não deveriam existir em sociedade civilizada.
Às vezes, porém, um pequeno resto de tragédia vivida e assistida, uma sandália, nos toca e emociona profundamente. Em um cruzamento, há a colisão de um automóvel com uma bicicleta. Ouvem-se os freios do carro, como se fosse o canto antecipador da tragédia, há a colisão e vê-se o corpo do ciclista elevando-se e sendo lançado ao chão. Nota-se o desespero do motorista querendo socorrer, o aglomerar-se de pessoas em torno daquele de quem a vida vai se despedindo.
A ambulância conduz o ferido, que deixa junto à calçada a mancha sangrenta da violência, que outros veículos logo apagarão com o rodar dos pneus. E após os comentários sobre quem tenha sido o culpado, o grupo se dissolve e segue cada um o seu destino. Como no samba de João Bosco “De Frente Pro Crime”:
“Depressa vai cada um pra seu lado
pensando numa mulher ou num time...
olhei o corpo no chão e fechei
minha janela de frente pro crime...”
Restou uma sandália abandonada no cruzamento. Uma sandália gasta, como gasto era o pé do ciclista. Uma sandália tão pobre quanto o seu dono, que na bicicleta devia estar voltando para casa, e mais uma vez contemplar sua mulher grávida e seus filhos a passar necessidades indignas para qualquer ser humano.
Talvez estivesse sonhando e conversando consigo mesmo ao pedalar e tornar-se mais uma vítima do trânsito: “que bom se ao voltar para casa eu pudesse ver meus filhos, que haviam chegado da escola, de banho tomado, sentados à mesa esperando que a mãe trouxesse a sopa de feijão, a galinha com arroz, o café, o leite o pão, a macaxeira! E que depois de todos satisfeitos, no terraço, sentassem à minha volta e de sua mãe, para contar as novidades do colégio, e eu contaria estórias. E a esposa a dizer que a gravidez estava acompanhada por médico. E todos a discutirem qual o nome mais bonito para aquele que iria saltar para a vida!”
Sonho. Ele seguia em uma bicicleta velha para um barraco infecto, sem água e sem sanitário, seus filhos sem escola, uns trapos para esconder os ossos, a mulher grávida, sem nunca ter feito um exame, próxima de dar à luz sem uma fralda para o filho. O sonho cortado pela violência. Ao menos sua inconsciência final não lhe permitia imaginar a dor dos que o esperavam, sem retorno.
Nos seus últimos instantes de vida, ainda pediu a Deus que protegesse e cuidasse de todos e que concedesse vida digna a quem nunca praticara o mal. E que não precisassem eles, nunca, usar uma sandália velha, como a que ficou no asfalto.
