Uma proposta indecente - Arthur Carvalho

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23/02/2011

Uma proposta indecente - Arthur Carvalho

23/02/2011
Uma proposta indecente - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 23.02.2011

Encontro Tancredo Loyo Borba, Antônio Porfírio da Silva (competente e esforçado advogado da AGU) e Reinaldo Belo, na Avenida Conde da Boa Vista, e todos são unânimes: "Gosto quando você escreve sobre o cotidiano." Muito bem. Então, vamos lá.

O vidro da porta do motorista de nosso carro não descia. Como vocês sabem, o engenho é automático. Aconselhado por filhos, noras, genros, amigos, gregos e troianos, levei o carro para uma revendedora "autorizada", na Imbiribeira. A Imbiribeira é território estranho para mim. Quando cheguei ao Recife, o bairro era um manguezal só, de um lado e do outro da Mascarenhas de Morais. Corria até uma história deliciosa de que ali, na Lagoa do Araçá, tinha tubarão.

Depois de muito procurar, cascavilhar e indagar, de oficina em oficina, achei a "autorizada". Um galpão enorme, ocupando quase um quarteirão inteiro, superlotada de veículos de todas as marcas, cores, tamanhos e ano de fabricação. É verdade que atrás da chique "autorizada" jaz uma favela miserável e fedorenta, mas isso é problema pra comunista. Fui atendido por um rapaz bem-educado, que manejou o vidro e deu logo o parecer: "A película está dificultando o vidro correr na calha. A solução é mudar a película." "Quanto custa o serviço, incluindo a mão de obra?" "Quatrocentos e cinqüenta reais." E como me viu calado e cabisbaixo, sem poder ler meu pensamento e descobrir minha perplexidade, completou a informação com singela sugestão: "Doutor, estou vendo que não temos película dessa cor sua, por que o senhor não aproveita e troca as películas das quatro portas, para ficar uma coisa padronizada?" Fingindo dúvida quanto ao fechamento da proposta indecente, indaguei quanto custaria tudo. Ele pegou a maquininha (hoje não se soma 2 + 2 sem a maquininha de calcular) e respondeu candidamente: "Apenas mil e oitocentos reais."

Agradeci ao atencioso moço e aterrissei numa "equipadora" da Madalena, onde o funcionário informou que também não tinha "minha" película fumê e recomendou outra "equipadora" na Avenida Caxangá, defronte da Exposição de Animais. Chegando lá, o próprio dono da loja veio me atender, expliquei o defeito, ele chamou o mecânico, pediu um spray, aplicou na calha do vidro, manobrando-o pra baixo, pra cima, o vidro desceu e subiu, ele mandou o mecânico botar o spray nas outras portas, elas funcionaram bem, perguntei quanto era o serviço, o homem respondeu: "Nada".

Não conformado, agradeci, mas disse-lhe que o havia procurado com um problema, ele resolvera o problema, portanto eu queria pagar o conserto. E ele: "O serviço não é nada. Se o senhor quiser comprar o spray, é vinte reais".

Comprei o spray, dei um agrado ao mecânico, peguei a maquininha de calcular (e carecia?), fiz as contas: um mil e oitocentos reais de orçamento, na "autorizada", menos vinte reais da "equipadora", da Caxangá, um mil setecentos e oitenta reais de economia. É mole?

P.S. – Recomendo, com entusiasmo, Salve a Nau Catarineta, opera popular de Vicente Monteiro, baseada na obra de Altimar Pimentel, dias 26 e 27 próximos, às 16h., no Teatro Apolo, apresentação Funcultura, projeto do Integrarte. 

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