Uma cadeira vazia - Éricka Gouveia

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04/06/2010

Uma cadeira vazia - Éricka Gouveia

04/06/2010
Uma cadeira vazia - Éricka Gouveia

Publicado no Diario de Pernambuco - 04.06.2010 

erickagouveia@hotmail.com

George Gouveia. Era esta sua assinatura. De forma inconsciente - ou não - nunca adotei sobrenome do marido. Fui e sou Gouveia, tal e qual a ele. Nasceu em São Joaquim do Monte. Vereador aos 18 anos. O mais novo do Brasil de então. Desistiu cedo da política. Preferiu a luta pelo Direito. Desta forma seguiu sua jornada no Recife. Deixando para trás o sonho de Severino Gouveia - seu pai - em dar continuidade ao engenho Santa'Ana. Foi advogado com amor pelo ofício e pelas causas. Funcionário público por circunstâncias. Apesar de honrar o cargo como poucos e raros durante 35 anos. Maçom por devoção, pai, filho, avô, boêmio e marido. Sobretudo marido. Nazinha era seu ar. Tive o privilégio de estar ao seu lado no momento exato de sua última jornada. Se foi com a mesma força e coragem que manteve e ensinou em vida. Conversamos muito. Sempre lúcido e prático. Tranquilo nos grandes momentos e diante das grandes decisões. Decidiu ir. Estava cansado. Deus o concedeu uma partida sem agonizar. Foi uma espécie de sonolência profunda. Mas, ainda assim, pediu caixão simples. Enterro rápido. E que tudo fosse "resolvido". Falava das coisas materiais e de mamãe. Só se foi quando o tranquilizei sobre ela e sobre nós três, seus filhos. Ritual maçônico foi sua exigência para o último adeus. Única. E foi uma ritualística linda. Roupa de gala. Estava com fisionomia serena, bonito como sempre. Não perdeu cabelos, nem quilos a se notar. As palavras sobre ele fizeram jus. Odiava a tendência que se tem de endeusar os mortos. Não, papai, você não será santificado. Você foi humano. Demasiadamente humano. Sua retidão de conduta e caráter eram obrigação e não virtude, você dizia. Não era de elogiar muito nada, nem ninguém. O velho guerreiro se foi. Figura impoluta e combatente. Defensor ardente da verdade e do justo. Radical e inflexível. Não fazia concessões. Daí, tido como polêmico. Tido não, era polêmico. A cadeira está vazia. Ficará vazia para sempre. Mas em nossas memórias e coraçõessua fortaleza, honestidade e coragem terão sempre um lugar ocupado.

Obrigada, papai.

Sei que muitos têm que lhe dizer: Obrigado, Dr. George!
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