Um dia na vida do Brasilino - João Bosco Tenório Galvão

Notícias

06/07/2009

Um dia na vida do Brasilino - João Bosco Tenório Galvão

06/07/2009
Um dia na vida do Brasilino - João Bosco Tenório Galvão

Publicado no Diario de Pernambuco - 06.07.2009

jbtg@uol.com.br

Nos idos de 1960 foi publicado um livrete político/panfletário, antiimperialista, denominado Um dia na vida do Brasilino. Era o delírio das esquerdas. Que panfleto! Dava um enfoque político ao consumo detalhado de todas as coisas usadas diariamente pelo Brasilino, um brasileiro dos anos 60. No panfleto, Brasilino acordando tocava uma campainha, chamando a copa, gastando energia da Light (multinacional), gerando lucro em favor dos capitalistas estrangeiros. Indo às suas abluções, usava sabonete Lever e pasta Kolynos, brilhantina no cabelo, desodorante no sovaco, todos de marcas americanas e, portanto, espoliadoras do brasileiro típico. O que seria dos odores de Brasilino sem o imperialismo yankee? Enfeitando-se, usava o creme de barbear Williams e as giletes azuis, que eram da Gillete. Vai ao café, come seu cuscuz, feito de milho da Refinazil do Brazil (com z), com leite de vacas alimentadas com ração norte-americana e descarrapatadas com inseticidas do Canadá. Infeliz a vida do Brasilino, que desce num elevador Schindler suíço e, na rua, acende seu cigarro Hollywood da Fabricante Souza Cruz, que não é nem de Seu Souza nem de Seu Cruz e sim da British Tobacco, companhia inglesa. Para onde se vire, o Brasilino dá lucro aos galegos. O pneu do ônibus é Pirelli italiano, o coletivo é Mercedes, alemão, o dinheiro é impresso na Inglaterra, o carro dos amigos mais abastados é fusca da Volks, alemã. Se compra a crédito paga juros aos Rockfellers, americanos, ou aos banqueiros Rotschild (???) franceses, anglo-saxônicos e judeus. Olhem que a vida do Brasilino, descrita no panfleto anti-imperialista, é de muita moleza, pois a do brasileiro comum, na década de 50, era muito, muito ruim, com a mortalidade infantil nas nuvens. Menos de 10% das ruas do Recife eram calçadas, ou seja, eram caminhos sobre mangues. Em Caruaru quase não existia água encanada, embora já existisse o desodorante americano e a pasta Kolynos. Sabonetes substituindo caroços de juá. O Brasil era uma sociedade de agricultores, e de euronófilos. As moças de alguma fortuna aprendiam, ainda, francês e ballet. O Brasil, todos os dias e todos os anos se endividava, pois o café e o açúcar não bastavam para quitar as obrigações de obras novas, dos vinhos, das sedas, dos luxos, todos importados. Desde a chegada de D.João VI em 1808, com a abertura dos portos, que os organismos internacionais (banqueiros) se preocupavam com o Brasil no tocante ao pagamento de suas obrigações, pois os fornecedores de dentifrícios, sabonetes, remédios, algodões e linhos suíços, relógios e jóias, caviares e vinhos, eram credores e cobradores ávidos e diligentes. Hoje, não devemos a ninguém, a não ser a nós mesmos. O real é forte e impresso na Casa da Moeda. O petróleo que era nosso se globalizou e o exploramos em quatro continentes com a Petrobras do Brasilino. A General Motors (americana) faliu e a brazileira (com Z mesmo) dá lucros em plena crise mundial. Hoje, a esquerda que se deliciava com o panfleto está no poder e garante o dinheiro dos gringos, pois aqui o porto é seguro para investimentos. Se já fomos pobres nem me lembro, pois, para nossa ufania, emprestamos dólares para o FMI. As veias da América Latina já não são tão sugadas, pois os índios da Bolívia dão calote institucional no Brasil Imperialista, e a explorada Venezuela tem rede de postos de gasolina, bem ali, nas ruas do Alabama, de New Jersey e da Califórnia.
 

Voltar