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10/06/2009Um dia a gente volta - Arthur Carvalho
10/06/2009
Publicado no Jornal do Commercio - 10.06.2009
Leio em Anselmo Gois, neste JC: "Adriano, o Imperador, que estreia hoje no Fla, comprou 70 ingressos para o jogo, entre cadeiras especiais, comuns e arquibancadas. Gastou R$ 6 mil. Deu tudo para a turma de amigos da Vila Cruzeiro ir ao Maracanã ver sua volta. Legal."
Isso me lembrou, por incrível que pareça ao leitor, uma conversa que tive com o poeta Thomas Seixas, numa ensolarada tarde de verão, no alpendre de sua casa da Rua das Graças, quando lhe perguntei por que ele tinha voltado do Rio de Janeiro, onde fora em busca da glória literária, chegando a ser colaborador do famoso caderno literário do Correio da Manhã: "Porque um dia a gente volta."
Pois é: já voltaram Ronaldo Fenômeno, Fred e Adriano. Brevemente estarão de volta, segundo a imprensa, Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Juninho Pernambucano. Em seu belíssimo samba Saudades da Bahia, Caymmi, nostálgico da terra natal, desabafava: "(...) Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz." E completa: "Ah, se eu escutasse o que minha mãe dizia!" Mãe, que lamentou quando ele pegou um Ita no Norte pra ir pro Rio morar.
Adriano se queixou das noites de Natal e fins de ano que passava solitário e sozinho, no frio da Itália, com os bolsos cheios de dinheiro, longe da família, da Vila Cruzeiro, onde nasceu, foi criado e tem amigos de infância e mocidade, onde sobe e desce as ladeiras sozinho, querendo, sem precisar de guarda-costas, de proteção da polícia e dos traficantes que o respeitam e admiram.
Não é fácil chegar a esse ponto de se tornar uma pessoa praticamente intocável, imune do ódio do marginal, da inveja da comunidade onde mora e da arbitrariedade policial. O dinheiro ajuda mas não compra a bem-aventurança. Patrimônio moral que ele adquiriu vivendo simplesmente, apesar de sua fortuna, estimado pelos moradores do seu morro, colhendo o que plantou nos 27 anos de idade.
Como se não bastasse, enfeita seu barracão com mulatas esculturais, coroando a felicidade, ao envergar a gloriosa camisa rubro-negra do Clube de Regatas do Flamengo, o mais querido do Brasil, seu time desde menino. Não suportando o peso esmagador do sucesso, foge da realidade, numa farrinha, de vez em quando, que ninguém é de ferro. Resumindo: ele optou por ser feliz, ao seu modo, dentro de seus padrões, valores e conceitos de felicidade, se lixando pros cartolas, medíocres e filisteus.
Entre exibir falsa euforia, no grand mond, boates e luxuosos salões da Europa, e voltar às suas raízes e seu país, tendo o sono embalado pelo repicar dos tamborins e rufar dos pandeiros, na cadência do samba – embora esses sons misturem-se hoje em dia ao silvo das balas assassinas dos fuzis e o matraquear das metralhadoras, na disputa sangrenta e feroz dos traficantes pelos pontos de droga ou no confronto entre bandidos e milícia – escolheu o bem-estar e a paz de espírito. Tem razão Alex quando diz que a felicidade está na capacidade de cada um realizar determinados sonhos.
P.S. – Estou sabendo do sucesso retumbante da 1ª Bienal do Livro e da Leitura recentemente realizada no Acre.
Leio em Anselmo Gois, neste JC: "Adriano, o Imperador, que estreia hoje no Fla, comprou 70 ingressos para o jogo, entre cadeiras especiais, comuns e arquibancadas. Gastou R$ 6 mil. Deu tudo para a turma de amigos da Vila Cruzeiro ir ao Maracanã ver sua volta. Legal."
Isso me lembrou, por incrível que pareça ao leitor, uma conversa que tive com o poeta Thomas Seixas, numa ensolarada tarde de verão, no alpendre de sua casa da Rua das Graças, quando lhe perguntei por que ele tinha voltado do Rio de Janeiro, onde fora em busca da glória literária, chegando a ser colaborador do famoso caderno literário do Correio da Manhã: "Porque um dia a gente volta."
Pois é: já voltaram Ronaldo Fenômeno, Fred e Adriano. Brevemente estarão de volta, segundo a imprensa, Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Juninho Pernambucano. Em seu belíssimo samba Saudades da Bahia, Caymmi, nostálgico da terra natal, desabafava: "(...) Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz." E completa: "Ah, se eu escutasse o que minha mãe dizia!" Mãe, que lamentou quando ele pegou um Ita no Norte pra ir pro Rio morar.
Adriano se queixou das noites de Natal e fins de ano que passava solitário e sozinho, no frio da Itália, com os bolsos cheios de dinheiro, longe da família, da Vila Cruzeiro, onde nasceu, foi criado e tem amigos de infância e mocidade, onde sobe e desce as ladeiras sozinho, querendo, sem precisar de guarda-costas, de proteção da polícia e dos traficantes que o respeitam e admiram.
Não é fácil chegar a esse ponto de se tornar uma pessoa praticamente intocável, imune do ódio do marginal, da inveja da comunidade onde mora e da arbitrariedade policial. O dinheiro ajuda mas não compra a bem-aventurança. Patrimônio moral que ele adquiriu vivendo simplesmente, apesar de sua fortuna, estimado pelos moradores do seu morro, colhendo o que plantou nos 27 anos de idade.
Como se não bastasse, enfeita seu barracão com mulatas esculturais, coroando a felicidade, ao envergar a gloriosa camisa rubro-negra do Clube de Regatas do Flamengo, o mais querido do Brasil, seu time desde menino. Não suportando o peso esmagador do sucesso, foge da realidade, numa farrinha, de vez em quando, que ninguém é de ferro. Resumindo: ele optou por ser feliz, ao seu modo, dentro de seus padrões, valores e conceitos de felicidade, se lixando pros cartolas, medíocres e filisteus.
Entre exibir falsa euforia, no grand mond, boates e luxuosos salões da Europa, e voltar às suas raízes e seu país, tendo o sono embalado pelo repicar dos tamborins e rufar dos pandeiros, na cadência do samba – embora esses sons misturem-se hoje em dia ao silvo das balas assassinas dos fuzis e o matraquear das metralhadoras, na disputa sangrenta e feroz dos traficantes pelos pontos de droga ou no confronto entre bandidos e milícia – escolheu o bem-estar e a paz de espírito. Tem razão Alex quando diz que a felicidade está na capacidade de cada um realizar determinados sonhos.
P.S. – Estou sabendo do sucesso retumbante da 1ª Bienal do Livro e da Leitura recentemente realizada no Acre.
