Tudo passa - Arthur Carvalho

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02/12/2009

Tudo passa - Arthur Carvalho

02/12/2009
Tudo passa - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 02.12.2009

De onde moro, vejo o pessoal fazendo cooper, lá embaixo, na pista da Av. Beira-Rio. Às 4h30, já ouço a conversa de alguns desses neuróticos que acordam cedo. As risadas sobem até nosso quarto, entrando pelo meu travesseiro.

Agora, no verão, a barra do dia clareia mais ou menos nessa hora, e os pássaros começam a cantar. Quando vim morar aqui, tinha mais passarinho, mas a turma vai pegando os melhores, principalmente sabiás e sanhaçus. No poste defronte do nosso prédio, reside um sibite extraordinário. Seu canto é forte, claro e diferente dos outros. Temo pela sua liberdade porque Elmiton, nosso encanador, veterano passarinheiro, me disse que um moço dos Coelhos vem sempre com um alçapão pegar passarinho na Madalena.

Na Praça Compositor Luiz Bandeira tem um casal lindo de bem-te-vis, de papo amarelo, sendo o macho excelente cantor. Pena que essa graciosa pracinha seja infestada de gatos vadios (existe gato trabalhador?), alguns deles com doença de pele. São alimentados todos os dias, por uma senhora que lhes serve restos de comida, emporcalhando o jardim e atraindo ratos que habitam o mangue vizinho. Sou meio chato pra esse negócio de proteger e criar animais sem dono. Acho que, primeiro, vêm a higiene e o bem-estar do homem. No local brincam crianças e idosos se exercitam. Se não me engano, fezes de gato causam graves doenças neurológicas.

Sei que esse comentário vai desagradar seus praticantes: o que mais me impressiona nos "atletas" que fazem cooper na Beira-Rio é sua progressiva decadência física, causada pelo avançar da idade, inclusive a minha. Quando aqui cheguei, aquele senhor de pernas arqueadas, que caminhava célere, em grupo, andava mais depressa, liderando sua turma. Seu ritmo foi diminuindo, e agora encerra a fileira. Isso me lembra o time do Sport, campeão de 1955, treinado por Gentil Cardoso. Ele escalava, sempre, o jogador mais bem condicionado fisicamente, para “puxar o individual”, como se chamava o exercício naquela época. Ou então, o irresponsável que bebeu na véspera. Certa vez, foi Mirim, que tomou uma cana federal numa buchada, no Cordeiro, com Traçaia, Gringo e Naninho.

Informado do ocorrido por um torcedor, Gentil chegou à Ilha do Retiro às dez horas, dirigiu-se ao centro do gramado com seus tradicionais boné e megafone, apitou chamando os farristas e ordenou: "Coluna por dois. Seu Mirim, na frente". Com sol a pino, um calor de rachar e a desidratação da ressaca, Mirim desmaiou e caiu na quarta volta ao redor do campo, sendo socorrido, às pressas, pelo lendário massagista Matias.

Um cronista sério e circunspeto diria que, sendo o tempo inexorável, ele atinge também os que procuram a Beira-Rio em busca de saúde. E é verdade. Mas não é só o senhor de pernas tortas que anda cada vez mais lento. Aquela morena que corria em ritmo cadenciado, acelerando os batimentos do meu coração, também diminuiu as passadas. E um rapaz apelidado de Pato Donald trota mais lento. Segundo Alexandre Blok, "Tudo se perde no mundo: as mães e a juventude". Assim como os grandes amores. Se é que eles existem.

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