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19/07/2011Tristeza na terrinha - João Bosco Tenório Galvão
19/07/2011
Publicado no Diario de Pernambuco - 18.07.2011
Neste final de junho tive um encontro anual com clientes no norte de Portugal. Gosto da terrinha. Talvez influenciado pelo fado de Chico Buarque que canta ser o Brasil um imenso Portugal. Tenho receio do vaticínio de nosso bardo, pois o Portugal de hoje não é animador. Andando nas ruas do Porto, comemorando as festas juninas que intermediaram nossas reuniões, fiquei triste e apreensivo. No centro comercial sempre dinâmico, constatei dezenas e dezenas de pontos e prédios comerciais desocupados com as tristes tabuletas de vende-se ou aluga-se. Já assistimos isso nas grandes capitais brasileiras. Pensei: isso deve ser localizado aqui na cidade do Porto. Não era! Na Vila Nova de Famalicão, outrora grande centro da indústria têxtil, os cotonifícios estão fechados e centenas de prédios com as já referidas tabuletas.
Alguns dizem que os estabelecimentos fecharam por conta da concorrência chinesa. Outros pensam que a crise é geral, pois Portugal gasta muito com os pobres sem acabar com a pobreza. Desperdiça muito pela inoperância e corrupção da administração pública. Falam ainda que obras desnecessárias como o trem rápido Lisboa/Madrid só fazem sugar o suor Português. Lá, como aqui, existem inúmeras denúncias de improbidade administrativa.
A indústria do turismo se mostra, de forma evidente, frágil, com grande oferta de leitos nos hotéis. No final da viagem, já em Lisboa, a tristeza aumentou. As tristes tabuletas estão mais evidentes. O desemprego é visível, a presença de imigrantes do leste europeu incomoda os nativos. Nos noticiários de rádio e televisão políticos e economistas falam ser hora de Portugal sair da zona do euro, ou seja, restaurar o escudo depois de tanto sacrifício ao ingresso na comunidade europeia.
Tais políticos e economistas de soluções ligeiras não falam em acabar com o desperdício da corrupção, das obras desnecessárias, da extinção dos habituais favores pelo uso do dinheiro público. Todos empresários com quem conversei se queixavam do alto custo das obras e do desperdício dos recursos públicos. Gastaram tanto que agora se veem às voltas com o FMI e demais órgãos de intervenção nas coisas internas de Portugal. Os cortes nos gastos públicos, em direitos previdenciários, nos salários e subsídios serão feitos de forma cruenta, com o povo, principalmente os mais humildes, pagando a conta, atendendo aos interesses portugueses de sanear sua economia, sob a cominação de longos problemas sociais e econômicos.
Nada entendo de economia, confesso. Porém, os exemplos de excesso dos gastos públicos são intermináveis, trem bala desnecessário, obras superfaturadas, tráficos de influência na concessão de serviços públicos, excesso de regulamentação de alguns negócios privados com impertinente intervenção da administração pública, o que me faz lembrar de novo o fado de nosso Chico, dessa vez invertendo a ordem dos personagens: será Portugal um pequeno Brasil?
