Torturas e eventos - João Bosco Tenório Galvão

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27/04/2009

Torturas e eventos - João Bosco Tenório Galvão

27/04/2009
Torturas e eventos - João Bosco Tenório Galvão
Publicado no Diario de Pernambuco - 27.04.2009

jbtg@uol.com.br

O gênero humano é por demais protocolar, sendo alguns povos mais formais do que outros. Herdamos dos portugueses a mania de carimbos. Papel sem carimbo dificilmente alcança o status de documento. Entre nós convite de última hora é ofensa às vezes inesquecível. Casamento de prestígio tem que ter dezenas de padrinhos (noivos não têm padrinhos e sim testemunhas), com largas repercussões no tempo da cerimônia. Se o casamento é chique tem padre que, assistindo aos noivos, pois padre não casa quem casa são os noivos, alonga-se demasiadamente na sua pregação. Reuniões de Rotary entre nós, têm que ter discurso, e não estou falando de conferencistas convidados, é discurso mesmo, num sentido lato e chato: exposição de talentos oratórios. Até em enterros quando o defunto é famoso a cerimônia se estende com coroas e coroas de flores, discursos entrecortados de lágrimas. Já assisti discurso até em inauguração de wc. É cômico, mas verdadeiro. Cerimônias a céu aberto, com sol escaldante, inaugurando obras inacabadas é bem frequente em final de administração. Fala prefeito, familiares de eventuais homenageados e, eventualmente, o vereador responsável pelo batismo da obra com o nome do nem sempre merecedor da homenagem. Fala-se, ou melhor, discursa-se em todos os eventos de vivos e mortos. Em aniversários, casamentos, batizados, velórios, inaugurações, até nas despedidas dos que partem e no retorno dos ausentes. Mas tudo tem seu tempo. Aqui, o devido tempo chega sempre com atraso. Cerimônias de inaugurações, assembleias de acionistas, sessões de parlamentos, posses, conferências e shows, e os inolvidáveis casamentos, tudo sempre acontece com a nossa tolerância de meia hora. Parece que nossa pontualidade é inversa à britânica. Recentemente a posse num Tribunal começou com atraso de cinquenta minutos. O último casamento que assisti foi uma hora e meia. Partida de avião tem sido uma verdadeira aventura, com atrasos inexplicados de várias horas. Contudo, a impontualidade não é oúnico problema. Em solenidades das mais diversas o público é quase sempre ofendido. Solenidades que deveriam ser festivas passam a ser torturantes. É posse de uma autoridade, sessão festiva de tribunais, aula de despedida, formatura de doutores, sermões, almoço do Ágape, qualquer reunião que seria prazerosa, vira sessão de tortura. Quem não se lembra do orador que se perde em sua trama, enrolando-se em discursos longos, estafantes, que fazem nervosas as plateias. Quando esse tipo começa os ouvintes já medem o volume de páginas nas mãos do orador. Geralmente os maçantes começam com a nominação das autoridades presentes, uma por uma num crescente tédio bajulatório, pois a autoridade não nominada se ofende. Se o discurso é de homenageado, o mesmo, antes do tema, agradece a amada esposa e filhos pelo apoio recebido no correr da vida. Após os preâmbulos vem longa e chata tortura, pois é da nossa cultura que orador ilustrado tem oração longérrima. Porém é vivendo e aprendendo, tenho amigos que só comparecem a solenidades com, no mínimo, meia hora de atraso.
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