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01/09/2010Tarde demais - Arthur Carvalho
01/09/2010
Cartas do pintor José Cláudio.
Escreve José Cláudio, do alto de seu charmoso bangalô e ateliê encravados ao pé da colina da Igreja e Mosteiro Nossa Senhora do Monte, das freiras beneditinas, em Olinda, bangalô cercado de luxuriante vegetação (gostou do luxuriante, Zé?) - o implacável escritor Fernando Monteiro adorou a palavra escol, que usei na minha última crônica, neste matutino. Gostou do implacável, civilista Fernando Lig-Lig Wanderley? Hoje estou com a gota.
Pois José Cláudio diz em sua missiva (tá danado!) datada de 13 de agosto do corrente ano, que mandou a crônica O solitário do almirante Jaceguay, que continha parte da letra do samba Praça Clóvis, de Paulo Vanzolini, na voz de Chico Buarque, para Paulo, seu autor. Na mesma carta José Cláudio comunica que tem recebido telefonemas perguntando se o artista plástico que pintou a tela à qual me refiro em A vida como ela é, recentemente publicada neste JC, é ele. Não, Zé, poderia ser, mas não é. Mesmo porque, entre o quadro de uma mulata escultural nua, de costas, e suas resplandecentes telas de sangues-de-boi, galos-de-campina e canários-da-terra, docemente empoleirados nos galhos das árvores, das caatingas, mata atlântica e brejos do Nordeste, sinto dificuldade em escolher as mais bonitas e representativas da nossa - como direi? - nacionalidade. No P.S., José Cláudio recomenda o filme "belíssimo", Um homem de moral, sobre Vanzolini, à venda em importante livraria da cidade.
Em outra carta, ele testa minha querida estagiária Cacilda Matias: achar, na internet, o soneto a que pertencem estes tercetos: "Nunca mais nos falamos... vai distante.../ Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante/ Em que seu mudo olhar no meu repousa,/ E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,/ Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,/ Mas que é tarde demais para dizê-la..."
Cacilda pesquisou, com sua proverbial competência, e encontrou o poema História Antiga, de Raul de Leoni (1895/1926), que agasalha os tercetos, transcritos por José Cláudio e começa assim: "No meu grande otimismo de inocente,/ Eu nunca soube porque foi... um dia,/ Ela me olhou indiferentemente,/ Perguntei-lhe porque era... Não sabia.../ Desde então transformou-se de repente/ A nossa intimidade correntia/ Em saudações de simples cortesia/ E a vida foi andando para a frente..."
Li Raul de Leoni, na mocidade, influenciado por Manuel Bandeira, seu admirador, mas não conhecia esse lindo soneto. Leoni é poeta esquecido, não se fala mais nele, nem no grande Cornélio Pena, nem em Cruz e Souza. Oh, meu Deus! Afinal, estamos na segunda era Dunga. Ivan Brondi me disse que bateu pelada com Dequinha, o "Passe de Veludo", este já veterano, e admirou sua categoria. Pois é. Vi Dequinha jogar pelo ABC, de Natal, no estádio Juvenal Lamartine, nos fins de 1948. 0 típico amarelinho nordestino, buchudo, pernas finas e cabeça chata, mas que classe! Oh, meu Deus!
Falando sobre a simplicidade e beleza dessa poesia de Raul de Leoni, com José Cláudio, me lembrei do verso de um humilde bardo pernambucano que os beletristas recifenses levavam no debique, até que um dia ele concluiu um poema assim: "(...) Lá, onde mora a solidão e sonham as garças..." E os deboches cessaram.
