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07/07/2011Talentos desperdiçados - Ronnie Preuss Duarte
07/07/2011
Publicado no Diario de Pernambuco - 07.07.2011
ronnieduarte@edtadv.br
Há alguns meses, fui convidado pelo meu amigo e professor Leonardo Cunha para proferir palestra na Faculdade de Direito do Recife. A plateia era formada por cerca de cem alunos. Perguntei aos presentes quantos cogitavam advogar após a conclusão dos estudos. Apenas três pessoas levantaram as mãos.
Impressiona o desinteresse dos jovens pela advocacia. A opção pelos concursos públicos deve-se a uma trinca de fatores. A primeira delas, a estabilidade. Para a admissão em um cargo público, o concurso exige muito dos aprovados. Alcançada a nomeação, as preocupações com o emprego praticamente acabam. Emprego e salário restam garantidos para todo o sempre, ressalvada a prática de falta gravíssima.
Já no setor privado, a cobrança por resultados e as avaliações de rendimento são contínuas. A produtividade é cobrada de maneira incessante e a concorrência de colegas é uma ameaça constante. A cada dia é necessário que o profissional demonstre valer o quanto recebe. O segundo fator a despertar a preferência pelos concursos é a remuneração nas carreiras jurídicas públicas que, contrariamente ao que se passava há algumas décadas, têm remunerações que superam, e muito, a média de remuneração do setor privado, notadamente nos estágios iniciais.
Finalmente, o último atrativo é a jornada de trabalho mais amena, já que servidores públicos estão obrigados a jornadas bem curtas, se comparadas às funções de idêntico padrão de remuneração desempenhadas no ambiente provado. Empregado ou liberal, o advogado sempre trabalha muito. Por tudo isso, o pragmatismo tem imperado entre os jovens. Persegue-se não uma carreira específica, mas uma função pública, qualquer que seja, desde que estável, bem remunerada e sem as cobranças habituais num ambiente profissional privado. Muitos renunciam à opção declarada e ao talento inato para a advocacia, trocando a realização de um sonho por qualquer emprego público onde se consiga aprovação.
A advocacia se ressente da falta de jovens talentos, os melhores alunos das faculdades, presentemente encantados pelos concursos, apressados em sentir o retorno financeiro do seu esforço acadêmico. Considerando que o mercado é presidido pela lei da oferta e da procura, os que optarem pela advocacia, pela baixa concorrência qualitativa expectada, têm um futuro promissor.
Todavia, a profissão exige que o profissional dê muito de si, antes de retribuir. O advogado é, sobretudo, um empreendedor. Alguém disposto a sacrificar o seu bem mais precioso em favor da profissão: o tempo. A recompensa é bissexta, mas sempre certa para os perseverantes e competentes.
Àqueles que trocaram os sonhos profissionais pela estabilidade, fica a esperança. Que o futuro não exija em troca do sonho frustrado, a felicidade individual, deixando a nódoa do arrependimento pela carreira abortada prematuramente. Que os atrativos atuais, designadamente estabilidade e a remuneração presentes nas funções públicas, se mantenham estáveis, já que a história mostra que concursados já ganharam muito, muito mal nesse país. Em suma: que os sonhos não tenham sido interrompidos em vão.
