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27/01/2011O suicídio do artista - João Humberto Martorelli
27/01/2011
Publicado no Jornal do Commercio - 27.01.2011
Aproveitando o embalo do último artigo, em que me detive na bioética, retomo a polêmica questão dos alívios emprestados aos moribundos. Refiro-me à eutanásia, ortotanásia e distanásia. Eutanásia é a ação médica de apressar a morte e até mesmo provocar a morte de maneira intencional com a finalidade de fazer cessar o sofrimento do paciente em situação terminal irreversível. Distanásia, ao contrário, é a ação que visa a evitar a morte iminente e inevitável a todo custo, mediante a utilização de todos os mecanismos disponíveis, ainda que isso cause maiores sofrimentos ao paciente. A ortotanásia, por fim, é a aceitação da morte em seu tempo adequado, não usando o médico os métodos extraordinários de prolongamento da vida como na distanásia e tampouco cuidando de apressá-la como na eutanásia, ministrando unicamente remédios e técnicas que aliviem a dor na medida do possível. O Código de Ética Médica em vigor determina que "nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará sob sua atenção todos os cuidados apropriados". E, no Capítulo V, que trata da relação com pacientes e familiares, preceitua que é vedado ao médico (art. 41) "abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu representante legal". Sob a ética médica, portanto, a eutanásia é proibida, a distanásia é ignorada e a ortotanásia, admitida.
Não decidimos a vida, podemos decidir a morte. Regras éticas e legais dimensionam a morte comandada por terceiros, mas isso remete ao fato de haver quem pretenda cuidar da própria, definindo o momento, o espaço, a forma. Senhor e dono de sua própria vida, criador onipotente, coragem, curiosidade, angústia, indefinição, a felicidade suprema de ir-se porque se quer, porque se encontrou a plenitude ou se perderam todas as esperanças, em todo caso, propriedade autônoma, intransponível, livre-arbítrio. Um homem que se tem a si, my way, eu, pura e simplesmente eu. O suicídio lento da vida autodestrutiva ou a morte ligeira do tiro na têmpora, do salto em direção ao solo.
Intrigante, fascinante mesmo é o suicídio ao fim da vida. Sándor Márai foi um escritor húngaro (sua região está hoje na Eslováquia) nascido no início do século passado. Fervorosamente apegado às raízes de sua terra, mas ligado ao mundo, por isso que peregrinou e habitou a Alemanha, a Itália, terminou morando em São Francisco, nos Estados Unidos. Descobri esse inigualável conhecedor da alma humana há pouco tempo, quando meu amigo Raul Henry me presenteou com a obra Veredicto em Canudos, romance que tem como ação o conhecido episódio da história brasileira e em que Márai descreve a paisagem da caatinga como um jagunço. Como foi saber de Canudos? Lendo Os sertões, de Euclides da Cunha. Sua obra magistral é As brasas, obsessiva procura do significado da paixão: "Não acredita que o significado da vida é simplesmente a paixão que um dia invade nosso coração, nossa alma e nosso corpo e que, aconteça o que acontecer, continua a queimar eternamente, até a morte? E não acredita que não teremos vivido em vão, se um dia sentimos essa paixão?". Em De verdade, falando da vida, do amor, da relação entre as pessoas, ele discorre sobre a entrega total que se torna aniquilamento, hino completo e belo em honra do amor: "...o amor, ou seja, a expressão completa da vida, a assimilação perfeita da existência e a consequência natural, o aniquilamento (...) Amar é o mesmo que conhecer a felicidade por inteiro e depois se extinguir". Esse homem universal, cosmopolita, apaixonado e amante matou-se com um tiro de pistola, aos 89 anos. Mario Monicelli, diretor de cinema, que teve sob sua batuta artistas como o comediante Totó, Ugo Tognazzi, Marcello Mastroiani, Vittorio Gassman e Alberto Sordi, autor de filmes memoráveis, bastando lembrar O incrível exército de Brancaleone, jogou-se da janela de um hospital em Roma, aos 95 anos.
Que desejos antecipam o fim da vida longeva? Aos artistas, é dado conhecer o outro lado, a arte desvenda os insondáveis caminhos do universo e da criação. Nada mais resta depois da obra, senão o "belo, que é o grau do Terrível, que ainda suportamos e que admiramos, porque, impassível, desdenha destruir-nos" (Minha obsessão por Rilke). Pois que nos destruamos nós mesmos e mergulhemos desamparados, mas onipotentes, sós e corajosos, no seio do mistério que pensamos ter enfim resolvido.
