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01/09/2009Souza Dantas - Hélio Coutinho Filho
01/09/2009
Publicado no Diario de Pernambuco - 01.09.2009
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Luiz Martins de Souza Dantas é um nome quase esquecido ou, amenizando, muito pouco lembrado diante de seus inquestionáveis merecimentos. Nascido em 1876, no Rio de Janeiro, descendente de uma muito ilustre família do império, Souza Dantas, depois de uma bela carreira política, é nomeado embaixador na França, onde permaneceu de 1922 até 1943.
Souza Dantas era um diplomata à moda antiga. Apreciador das artes, bon-vivant, gostava de música, da boa mesa e da companhia de belas mulheres. Era conhecido como uma alma generosa e altruística. Vivendo em Paris, atento observador, foi percebendo as nuvens cinzentas que apareciam no horizonte. Previu a tempestade que em pouco se espraiaria pela Europa, vinda do leste. Com a ascensão de Hitler à Chancelaria do Reich, o rearmamento alemão nas barbas de uma Europa abúlica e submissa, Souza Dantas informava ao Itamaraty da "catástrofe que se abateria sobre a humanidade", sobre a "barbárie" e sobre a época de "trevas" queo mundo vivia, usando aqui expressões suas. Viu com apreensão e angústia as movimentações da Wehrmacht, a ocupação da Renânia, a invasão dos Sudetos e a consequente tomada da Tchecoslováquia e na Áustria, a Anschluss.
Souza Dantas era dotado de uma extraordinária dimensão humana. A coragem e uma grande compaixão eram atributos de sua personalidade e impregnaram as atitudes que passou a tomar. Em um de seus informes ao Itamaraty dizia: "A Gestapo vem procedendo na França ocupada, a verdadeira escravização e extermínio de judeus. Suas famílias são literalmente separadas: os maridos de cabeças tosadas são trazidos para trabalhar na Silésia; suas mulheres são internadas nos campos de concentração na Polônia, ...". Afrontando as diretrizes do Itamaraty, Souza Dantas concede vistos a judeus carimbando seus passaportes com "Bom para o Brasil". Interferiu para que seus colegas cônsules em Cádiz, na Espanha, e Casablanca, no Marrocos, também fizessem o mesmo. Os vistos somaram 800, sendo 425 a judeus, dentre os quaisZbigniew Ziembinski e Oscar Ornstein, que se destacaram em suas áreas de trabalho no Brasil. Em 1943, a Gestapo invadiu a Embaixada brasileira na França não ocupada em Vichy, e Souza Dantas juntamente com seus colaboradores e funcionários foram detidos e deportados para Bad Godesberg, na Alemanha, onde ficaram confinados no Hotel Dressem (o mesmo onde Hitler recebeu Chamberlain) até o final de março de 1944, quando foram trocados por prisioneiros alemães mantidos em prisões brasileiras. Entre os internados estava Paulo Berredo Carneiro, que integrou o secretariado do governador Carlos de Lima, sendo depois diretor da Unesco. O Itamaraty abriu um inquérito administrativo em 1941 e aposentou Souza Dantas de forma compulsória. Entretanto foi mantido no cargo face à impossibilidade de encontrar-lhe um substituto durante a guerra. Souza Dantas tinha muitas amizades, dentre as quais a de Oswaldo Aranha. Gabriele d'Anunzio a ele se referia como o "ambasciatore delle grazie". Não foi fácil puni-lo. Posteriormente foireabilitado e representou o Brasil em reuniões internacionais. Israel lhe concedeu o título de "Justo entre as Nações". Não fora a pesquisa séria e profunda de Fábio Koifman e que resultou no seu extraordinário Quixote nas trevas, o nome de Souza Dantas permaneceria nos escaninhos empoeirados do Itamaraty. Cabe a pergunta: por que Souza Dantas é ainda "convenientemente esquecido" pela história do Brasil e não figura em nenhum de seus livros de texto. Cabe também a sugestão: que os judeus brasileiros ou brasileiros de origem judaica, como preferirem, de boa situação econômica, contratem um excelente roteirista e depois chamem Walter Salles ou Fernando Meireles, ou ambos, e produzam um filme sobre Souza Dantas e sua saga.
