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16/12/2009Sonhos e devaneios - Arthur Carvalho
16/12/2009
Publicado no Jornal do Commercio -16.12.2009
Telefonema de Djalma Procópio, ex-dono da Churrascaria Riviera, do velho Pina, contando sonho recente. No sonho, ele foi dançar com Mary, em João Pessoa, no tempo em que a Orquestra Tabajara tocava por lá, na PRI-4, sob a regência do maestro pernambucano e grande clarinetista Severino Araújo.
O baile, no clube Cabo Branco (leitores eruditos vão informar que ainda não existia esse clube naquela época), estava animado, Severino foi ao microfone e anunciou os melhores instrumentistas do Brasil, dando canja na sua orquestra: "Com vocês, Jacob do Bandolim!"
Jacob estraçalhou. E enquanto Djalma conversava, tentei me lembrar onde li que Jacob do Bandolim foi o maior solista do século 20, mas Djalma continuou a falar. Ao piano, Arthur Moreira Lima, interpretando Cabuloso, de Ernesto Nazareth. No trombone de vara, Raul de Barros, solando Na Glória. Ao violão, Turíbio Santos, acompanhado de Canhoto da Paraíba e Henrique Annes. "Dá pra encarar?", emocionou-se Djalma.
A orquestra parou pro intervalo e voltou arrasando com o choro Espinha de bacalhau, do próprio Severino Araújo, com Russo do Pandeiro dando show. Recordando as noitadas do Cassino Americano - quando o boêmio Waldemar Machado, pródigo no pagamento das despesas, ordenava ao gerente: "Tranca as portas. Não sai nem entra mais ninguém" - Djalma pediu boleros. Não podia o maestro tocar La barca? Claro, alegrou-se Severino, que tinha uma surpresa pra Djalma: chamou ao palco, nada mais, nada menos que Lucho Gatica, delirantemente aplaudido.
Ouviu-se, depois, a flauta magistral de Altamiro Carrilho e o saxofone de Abel Ferreira. Djalma jura que escutou o chorinho 1x0, de Pixinguinha, e Moreira da Silva cantando Na subida do morro. O sono apertou e ele teve dúvida se era Moreira da Silva ou Jorge Veiga, o caricaturista do samba. Lembrou-se de uma temporada relâmpago hospedado no Copacabana Palace, e lhe vieram à mente as magistrais interpretações dos maxixes de Sinhô, por Mário Reis.
Djalma recuperou a linha cruzada e disse que a maior cantora de todas as épocas foi a mexicana Yma Sumac, vindo Catherine Valente em segundo. E onde fica o baile da Tabajara nisso tudo?, indaguei a Djalma. Ele ponderou que eu estava exigindo muito e perguntando bobagem, porque sonho é sonho, e não tinha explicações a dar.
É possível que um leitor jovem diga que só citei museu – então divido a responsabilidade com Procópio. Outro dia, li, de Ruy Castro, estudioso da MPB, no Jornal da ABI, uma revelação surpreendente. Ele confessou que aprecia muito a moderna música popular brasileira, mas do que gosta mesmo é de ouvir os discos antigos de Chico Alves.
Djalma, não esqueço é da radiola de ficha da sua (nossa) Riviera, quando eu, assim que chegava na churrascaria, teclava Meu romance, de J. Cascata e Leonel Azevedo, na voz inconfundível de Orlando Silva, a lua cheia surgindo da imensidão escura do mar, clareando as jangadas que dormiam na praia. E você, lá dentro, preparando os drinques dos clientes, adivinhava minha presença: "Arthur chegou?" E Nelson Caldas: "Chegou!" Então, como dizia Renato Carneiro Campos ao poeta Gari, seja o que Deus quiser!
P.S. – Excelente o livro A guarda dos filhos e evolução dos direitos humanos, do jurista Jarbas Maranhão, Editora Litoral.
