Sobrevida - Arthur Carvalho

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03/06/2009

Sobrevida - Arthur Carvalho

03/06/2009
Sobrevida - Arthur Carvalho
Publicado no Jornal do Commercio - 03.06.2009

O Brasil inteiro acompanha, emocionado, o sofrimento do vice-presidente da República, José Alencar, que se submeteu a oito operações visando combater o sarcoma que se alastra pelo seu organismo debilitado com tanta intervenção, inclusive a que durou cerca de 18 horas, para retirada de tumores na região abdominal, no início do ano. Como novos exames apontaram a existência de outros abscessos, no local, ele viajou a Houston, para se submeter a tratamento experimental no M.D. Anderson Cancer Center, centro de excelência no combate à doença.

Tenho torcido muito por ele, simpático à sua bravura e maneira de encarar essa moléstia terrível. Além dele, a ministra Dilma Rousseff passa pelo mesmo calvário, como se não bastassem a longa prisão e as torturas sofridas durante a ditadura. Pessoa de igual estirpe à de José Alencar.

Só sabe a dor do câncer o paciente ou sua família. Meu pai , que fumava dois maços de cigarro por dia, morreu de câncer no fígado, após longa enfermidade. Minha mãe, que detestava cigarro, morreu de câncer oito meses depois. Segundo os médicos, por ser fumante passiva e viúva saudosa do companheiro inseparável de mais de 50 anos. Na verdade, depois que perdeu papai, mamãe, mulher dinâmica, vestiu luto, fechou-se em copas, não saindo mais de casa nem para ir aos jogos do Sport, clube que adorava. Sentou-se na poltrona da sala de visitas, deixou de fazer seus bolos de chocolate, tortas de maçã e licores de gerânio e de jenipapo, esperou a morte, na mais profunda solidão, a morte chegou – e ela se foi.

Rubem Braga consumia três a quatro carteiras de Marlboro por dia, bebia, frequentava restaurantes, bares e boates onde quase todos fumavam, e terminou com câncer no esôfago. Quando leu o diagnóstico, estremeceu: "É de amargar!" E resolveu enfrentar a situação no cru, sem remédio específico para o mal, sem as torturantes seções de quimioterapia e seus efeitos colaterais.

Sabendo disso, seu colega Armando Nogueira, então diretor de jornalismo da Rede Globo, deu-lhe o recado: "Doutor Roberto mandou dizer para você escolher o melhor hospital, especializado dos Estados Unidos, com atendimento pago pela empresa." Braga agradeceu a gentileza e a solidariedade, mas dispensou os favores, pois não queria "sobrevida", embora sabendo que Jorge Veiga, "o caricaturista do samba", estava se tratando, com relativo sucesso, do mesmo problema com renomado oncologista do Rio.

Perto de partir, o sabiá da crônica recebeu, em sua cobertura de Ipanema, a visita da ex-namorada, Tônia Carrero, uma das suas maiores paixões. De repente, ela começa a chorar, ele pergunta o motivo. "Porque você é um amigo que vai nos deixar". E ele: "Não chore, não, que isso aqui não é essa coisa fantástica que a Globo diz". E pediu a seu médico transferência para um país que permitisse a eutanásia, a Holanda, talvez, e como o médico desconversou, ele desabafou: "Eu não quero atravessar este Natal e fim de ano vivo".

Pouco depois foi hospitalizado e escreveu sua última crônica na véspera de morrer. Seus amigos íntimos ficaram surpresos ao saber que ele tinha falecido, quase "de repente", após ser internado. A questão é: vale a pena sobrevida de intenso sofrimento em vão?

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