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14/11/2010Síndrome do ninho vazio - Dayse de Vasconcelos Mayer
14/11/2010
dayse@hotlink.com.br
A elegante senhora conversava na fila do supermercado. Lamentava estar sofrendo da síndrome do ninho vazio. Acomete os pais que não conseguem lidar com o afastamento dos filhos na idade adulta. E cada pimpolho detém um estilo singular de debandar. Alguns se mandam sem olhar para trás com receio de se converter em estátua de sal, outros conseguem deixar os familiares de maneira conciliadora. Optaram pelo casamento e pela procriação, formas aprovadas ou louvadas pela sociedade em todos os tempos. Contudo, não é aceitável a residência no exterior ou em outra unidade da federação. Terão que permanecer na mesma cidade dos pais. Há os que tomam uma decisão paradoxal: recusam o abandono da muleta econômica. Exigem uma mesada para o sustento pessoal. Os nossos legisladores e magistrados patrocinam ou apadrinham esse tipo perverso de comportamento. Antes eram os descendentes que se responsabilizavam pelos pais, hoje sucede o inverso. Existe também uma modalidade de família que, conscientemente, fez opção pela educação para a não emancipação e maturidade da cria. Privilegia a servidão ou vassalagem consentida do rebento - na maioria das vezes filho único. São os "especialistas em bonsais humanos" - aquelas árvores nanicas que os chineses e japoneses inventaram. Todavia o tempo não será tão extenso. Perdurará até ao inventário ou falecimento dos pais. Depois disso, a desgraça ou miséria é sempre algo a vaticinar.
Mas o processo educacional difere muito. O liame entre as experiências aludidas é o pragmatismo da geração do nosso tempo. Hippies, yuppies e workaholics educaram os filhos para uma realidade para que eles, pais, não estavam minimamente preparados. Os primeiros formaram uma geração de decisores porque os pais renunciaram ao papel que lhes cabia. Foram convertidos em seres movidos pela angústia, medo e ansiedade. Os segundos - oriundos das universidades e no exercício da profissão que escolheram - desejavam ganhar dinheiro para adquirir uma casa no campo ou na praia. O sonho de consumo era o carro do ano para mostrar aos amigos, sem esquecer, como é óbvio, as grifes famosas adquiridas no exterior. Já os workaholics do nosso tempo, não lograram êxito na missão de revelar aos sucessores que estudo e trabalho são decisivos para o êxito ou sucesso. Com tal finalidade acabaram perdendo todas as fases de evolução da prole. E apenas pelo temor de serem vistos como seres vagantes, devolutos ou ociosos. Identificam-se nas mesmas expressões: "Não tenho tempo", "Estou cheio de trabalho", "Não sei como darei conta de tantas atividades", etc. O trabalho compressor acaba por se converter em catarse ou processo de redenção de culpa. Algo assemelhado ao pecado da gula pois o desregramento alimentar sugere consumismo extremo. Metaforicamente, o workaholic rebenta pelo excesso de trabalho. Embora defendam o direito à liberdade, homens e mulheres desse grupo não podem encapotar o desejo inconsciente de serem capturados ou aprisionados. Necessitam preencher o vazio interior saturando a vida com uma profusão de encargos. A tônica é a mesma: a sociedade capitalista não prescinde do êxito ou sucesso. E apenas os vitoriosos merecem respeito e aplauso. Já na faixa dos 65/70 anos os viciados em trabalho são consumidos pelos três D: depressão, desalento, desilusão. A maioria dos filhos - e não todos - percebe o que se passa. Por isso ab-jura os padrões familiares. Delineia-se outro modelo. O trabalho deixa de existir como um fim em si mesmo. É apenas meio para o alcance de certos objetivos de vida. Sequer admitem que lhes furtem o ócio e o lazer. Esta é a forma e fórmula que encontraram de reação ao mercado de trabalho ou à empresa - sempre disposto a descartar o trabalhador no instante em que ele envelhece e se revela menos capaz de suportar a intensidade do que se lhe exige. Por isso os jovens mudam de emprego como se trocassem de camisa. Desde que surjam melhores condições salariais ou de satisfação pessoal, partem para outra. E sem levar na sacola qualquer sentimento de culpa. É uma geração fogosa, imediatista, despojada de fé, individualista, impaciente e pouco sentimental na defesa dos seus interesses. Será um progresso? Ao que consta ninguém soube ainda informar.
