Sergio Murilo Santa Cruz - João Bosco Tenório Galvão

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22/02/2010

Sergio Murilo Santa Cruz - João Bosco Tenório Galvão

22/02/2010
Sergio Murilo Santa Cruz - João Bosco Tenório Galvão

Publicado no Diario de Pernambuco - 22.02.2010

jbtg@uol.com.br

O ano de 1968 foi de eleições para vereadores nas capitais, pois os mandatos eletivos de prefeitos já tinham sido abolidos pelo regime vigente. Nesta época, os movimentos sindicais e estudantis eram vibrantes, culminando com a greve de Osasco, com operários massacrados e com enormes passeatas estudantis, sendo realizado o Congresso da UNE em Ibiúna, verdadeiro mico, onde foram presas e identificadas as melhores lideranças da juventude brasileira. Nesse ano conheci o advogado Sergio Murilo Santa Cruz, de quem fiquei amigo e posteriormente compadre. Disse-lhe da minha candidatura à Câmara Municipal do Recife e ele de plano e sem contrapartida se dispôs a ajudar. Sergio tinha sido deputado estadual e tivera cassado o mandato pela própria Assembleia de Pernambuco, subjugada pelas pressões militares. Sem mandato e sem política, Sergio substituía sua atividade política pelo exercício da grande arte que detinha, a arte de advogar. Nosso primeiro encontro foi noseu escritório da Rua Confederação do Equador, onde se mostrou empolgado com a minha campanha para vereador, fazendo oportunas sugestões. Sendo eleito, iniciaram-se os problemas de toda ordem, desde a diplomação, posse, até a cassação do mandato e dos direitos políticos. Foram tentativas de prisões, processos na Auditoria Militar, expulsão da Faculdade. Eu tinha virado uma espécie de leproso social, evitado por velhos amigos, enquanto a vida me mostrava novos.

Certo dia, após a cassação do meu mandato de vereador do Recife, precisamente dia de finados de 1969, visitando Sergio Murilo em seu escritório, contei-lhe do meu desejo de exercer a advocacia. Era portador de uma carteira de solicitador da OAB, concedida pelo então presidente José Neves. De plano me convidou, oferecendo o seu próprio gabinete como minha sala de trabalho. Começamos uma grande parceria e, com ele, realmente, aprendi os primeiros passos na arte de advogar. Sergio Murilo foi a grande vocação de advogado que conheci, admirado por milhares de clientes que atendeu em sua profissão. Destemido, ético, talentoso, paciente com os mais novos, a muitos ensinou. Seu escritório abrigou vários cassados, os leprosos sociais da época ditatorial. Penso que seu organismo não fabricava os hormônios do medo e da frouxura. Numa das suas prisões o General Geisel, então um simples general, veio apurar as denúncias da prática de tortura a presos políticos, denunciadas a nível mundial. Os presos, perfilados no pátio da 2ª Cia. de Guardas, foram interpelados sobre a propalada tortura e a negaram. Sergio, que estava ao ponto de ser solto, protestou: disse ao general que mandasse examinar costas, pés, braços, bocas e dentes de alguns presos, e confirmaria a prática infamante. Constrangimento geral diante das denúncias e Sergio ganhou mais dias de xadrez.

Nenhuma pessoa, das dezenas que lhe procuravam diariamente, saía sem uma orientação ou uma palavra de conforto. Algumas causas que conhecidos advogados recusavam por receio, Sérgio aceitava. Honorários, recebeu em várias moedas: perus e queijos do reino no Natal, bacalhau e peixes na semana santa, galinhas, doces e cocadas no ano inteiro, eram pessoas demonstrando suas gratidões da forma que podiam. Às vezes, Sergio se preocupava diante de compromissos quando lhe faltava a verba necessária. Porém, penso que a Providência Divina lhe ajudava, pois sempre chegavam honorários retardatários para dívidas pontuais. No acervo de suas causas foram mais de mil júris populares, centenas de desquites, milhares de ações. Em 1974 lhe apontei o caminho do retorno à atividade política que o fascinava. Sergio tinha direitos políticos, pois sua cassação de mandato fora pela Assembleia do Estado. Candidatou-se (deputado federal), venceu nas urnas e nos Tribunais, e a política retirou da advocacia uma das suas grandes vocações. Hoje, Pernambuco se ressente das qualidades político-parlamentares de pessoas como Sergio Murilo. Sem dúvida o nível baixou, porém as eleições vêm aí.
 

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