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26/04/2009Sem lei e sem alma - Dayse de Vasconcelos Mayer
26/04/2009
Publicado no Jornal do Commercio - 26.04.2009
Os apaixonados pelo gênero faroeste estão familiarizados com os ícones desse tipo de cinema: o pistoleiro injustiçado – durão, célere no gatilho e com um passado obscuro –, as damas ou prostitutas do saloon, o facínora, os bandidos sujos, o jogador de cartas, o xerife inflexível ou pervertido pelo poder do dinheiro, o banqueiro corrupto, o colonizador em conflito com os índios, o bar, o piano revelador da cultura civilizada, a estrada de ferro fazendo a ponte com o progresso.
Há marcas igualmente fortes no mesmo estilo de filme: a história que se desenvolve em torno do bem e do mal, realçada por um cenário inconfundível: regiões inóspitas e montanhas grandiloquentes, a cavalgada solitária do herói, os closes da câmera direcionados para o rosto do herói e do facínora, a velha trilha sonora antecipando o duelo irremediável, numa espécie de morte anunciada.
Costuma-se usar a palavra anomia com o sentido de privação de lei ou ausência de normas de conduta para caracterizar a colonização do Oeste dos EUA. A interpretação é imperfeita. Os filmes desse gênero carregam em seu núcleo o cumprimento de um dever, a observância de um código moral-social. Parece inexata, igualmente, a comparação da sociedade brasileira com o "tempo das diligências". A identificação poderia ser aceita apenas no plano da inércia do nosso povo – sempre escondido atrás das janelas na expectativa de que o mocinho cuide da sua paz e segurança. Esquecemos, naturalmente, que os heróis foram sepultados sem substitutos. O xerife permaneceu, embora com substanciais diferenças no sentido e valor da palavra. Revela-se na figura do delegado de polícia, do promotor e do juiz, do prefeito, do síndico, do diretor de escola, do governador, etc.
Iniciar pelo xerife do edifício teria algum interesse. O prédio comercial ou rsidencial é a imagem em miniatura de um país com muitas leis e excesso de contravenções. Os edifícios passaram a ser, por isso, o habitat do desgoverno. Um olhar rápido pelos átrios dos antigos prédios do Recife – especialmente daqueles localizados perto do antigo cinema São Luís – denuncia a decadência existentes no Centro. Igual cenário pode ser observado em um bom número de prédios residenciais. Agrava o desenho, a proliferação de cães e gatos mimados nos apartamentos, o estacionamento de veículos em áreas proibidas, a presença constante de lavadores de automóveis com seu arsenal de limpeza. Em muitas unidades residenciais, particularmente da classe média, o despertador foi substituído por outras formas de acordar: os sons dos automóveis dos vizinhos. E pouco importa o conhecimento de que a emissão de ruídos além de violar direitos fundamentais, provoca distúrbios físicos e mentais. Indiferente a essa realidade, até mesmo os médicos e os operadores do direito concorrem para a exacerbação do caos. E tudo se passa com o beneplácito dos órgãos encarregados de zelar pela felicidade do povo. Afinal, em matéria de condomínio, vige o princípio do bunker: a impenetrabilidade. Temerosos, os síndicos-xerifes apenas cumprem o seu mandato aceitando perder, temporariamente, a visão e a audição para evitar aborrecimentos. Mutatis mutandi, o problema se estende a outras esferas da sociedade. Tudo em observância ao princípio dos círculos concêntricos, evoluindo do edifício para a cidade e desta para o Estado e o País. Nisso tudo, a nossa indiferença é uma realidade inquestionável. Assumimos o papel de zombies, com pouca ou nenhuma disposição para olhar para o alto e virar a mesa. Queira Deus que não se aplique, entre nós, a frase do milionário Schermerhorn numa conversa com o político Tweed, no filme Gangues de Nova Iorque: Usa-se uma metade da ralé para aniquilar ou exterminar a outra.
Os apaixonados pelo gênero faroeste estão familiarizados com os ícones desse tipo de cinema: o pistoleiro injustiçado – durão, célere no gatilho e com um passado obscuro –, as damas ou prostitutas do saloon, o facínora, os bandidos sujos, o jogador de cartas, o xerife inflexível ou pervertido pelo poder do dinheiro, o banqueiro corrupto, o colonizador em conflito com os índios, o bar, o piano revelador da cultura civilizada, a estrada de ferro fazendo a ponte com o progresso.
Há marcas igualmente fortes no mesmo estilo de filme: a história que se desenvolve em torno do bem e do mal, realçada por um cenário inconfundível: regiões inóspitas e montanhas grandiloquentes, a cavalgada solitária do herói, os closes da câmera direcionados para o rosto do herói e do facínora, a velha trilha sonora antecipando o duelo irremediável, numa espécie de morte anunciada.
Costuma-se usar a palavra anomia com o sentido de privação de lei ou ausência de normas de conduta para caracterizar a colonização do Oeste dos EUA. A interpretação é imperfeita. Os filmes desse gênero carregam em seu núcleo o cumprimento de um dever, a observância de um código moral-social. Parece inexata, igualmente, a comparação da sociedade brasileira com o "tempo das diligências". A identificação poderia ser aceita apenas no plano da inércia do nosso povo – sempre escondido atrás das janelas na expectativa de que o mocinho cuide da sua paz e segurança. Esquecemos, naturalmente, que os heróis foram sepultados sem substitutos. O xerife permaneceu, embora com substanciais diferenças no sentido e valor da palavra. Revela-se na figura do delegado de polícia, do promotor e do juiz, do prefeito, do síndico, do diretor de escola, do governador, etc.
Iniciar pelo xerife do edifício teria algum interesse. O prédio comercial ou rsidencial é a imagem em miniatura de um país com muitas leis e excesso de contravenções. Os edifícios passaram a ser, por isso, o habitat do desgoverno. Um olhar rápido pelos átrios dos antigos prédios do Recife – especialmente daqueles localizados perto do antigo cinema São Luís – denuncia a decadência existentes no Centro. Igual cenário pode ser observado em um bom número de prédios residenciais. Agrava o desenho, a proliferação de cães e gatos mimados nos apartamentos, o estacionamento de veículos em áreas proibidas, a presença constante de lavadores de automóveis com seu arsenal de limpeza. Em muitas unidades residenciais, particularmente da classe média, o despertador foi substituído por outras formas de acordar: os sons dos automóveis dos vizinhos. E pouco importa o conhecimento de que a emissão de ruídos além de violar direitos fundamentais, provoca distúrbios físicos e mentais. Indiferente a essa realidade, até mesmo os médicos e os operadores do direito concorrem para a exacerbação do caos. E tudo se passa com o beneplácito dos órgãos encarregados de zelar pela felicidade do povo. Afinal, em matéria de condomínio, vige o princípio do bunker: a impenetrabilidade. Temerosos, os síndicos-xerifes apenas cumprem o seu mandato aceitando perder, temporariamente, a visão e a audição para evitar aborrecimentos. Mutatis mutandi, o problema se estende a outras esferas da sociedade. Tudo em observância ao princípio dos círculos concêntricos, evoluindo do edifício para a cidade e desta para o Estado e o País. Nisso tudo, a nossa indiferença é uma realidade inquestionável. Assumimos o papel de zombies, com pouca ou nenhuma disposição para olhar para o alto e virar a mesa. Queira Deus que não se aplique, entre nós, a frase do milionário Schermerhorn numa conversa com o político Tweed, no filme Gangues de Nova Iorque: Usa-se uma metade da ralé para aniquilar ou exterminar a outra.
