Selvageria - Arthur Carvalho

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05/01/2011

Selvageria - Arthur Carvalho

05/01/2011
Selvageria - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 05.01.2011

A Prefeitura do Recife deu um baculejo na 7 de Setembro, retirando a maioria dos camelôs que infestavam a rua, emporcalhando as calçadas e atravancando o trânsito de veículos e pedestres. Falta sanear o caudaloso esgoto a céu aberto que corre no meio-fio dos passeios.

Aí, a porca torce o rabo, porque a Prefeitura diz que é problema da Compesa e a Compesa diz que o problema é da Prefeitura. Está fazendo 15 anos, um cliente nosso, auditor da Fazenda Estadual, caiu, à noite, num buraco aberto pela Compesa, na avenida onde ele morava, dirigindo seu carro. Sofreu lesão grave no pé direito, foi atendido na urgência de famoso hospital particular recifense, fizeram uma barbeiragem e ele ficou lesionado para sempre.

Entramos com ação de indenização por danos materiais e morais contra a Prefeitura do Recife, que quis se isentar de culpa, argumentando que o serviço foi feito pela Compesa, portanto cabia à Compesa "tapar o buraco", enquanto a Compesa entendia que, embora aberto por ela, Compesa, o buraco devia ter sido fechado pela Prefeitura. Ou seja: o buraco era mais embaixo. E essa pendenga processual, considerada procrastinação e "ilegitimidade de parte", durou tanto que deu tempo de a vítima se submeter a mais duas infrutíferas e traumatizantes cirurgias: uma em Brasília, outra em São Paulo.

A quem cabe, portanto, limpar os esgotos que afloram no centro comercial da outrora Veneza Brasileira, exalando aquele odor putrefacto característico dos excrementos animais?

Percorremos espinhoso caminho, expulsando, parcialmente, os ambulantes da 7 de Setembro. Falta agora os comerciantes da Rua da Imperatriz cumprirem seu dever elementar e cívico de sanear outro tipo de incômodo: as caixas de som das portas das lojas com "locutores" berrando, "atraindo" fregueses. Insuportável poluição sonora, cena deprimente, de mau gosto e grotesca. Se não acabarem com isso, a Imperatriz vai se transformar em chiqueiro. Chiqueiro de pato.

Com o calor que está fazendo e a multidão que por ela passa, todos os dias, a Imperatriz é um corredor do inferno. Existe uma lei municipal proibindo essa esculhambação. Cabe aos comerciantes acatá-la. Para o bem da cidade e de todos nós. Questão de educação e sensibilidade. De civilidade. Que saudade da Rua Nova dos anos 50 e 60! A Rua da Imperatriz, verdadeiro mercado persa, está descambando para a selvageria.

P.S. – Excelente o livro Lira de um grande amor – No liminar do sonho, do poeta Vieira de Mello, orelhas de Djalma Procópio e de Benito Araújo, prefácio de Padre João Machado de Souza. Leitura agradável e prazerosa.

Muito sentido nos meios artísticos e políticos de Pernambuco o falecimento de Delano, que, além de ótimo pintor, era gente fina. Finíssima.

Não foi Albert Camus que visitou Joseph Conrad, conforme minha última crônica. Foi André Gide. Obrigado, Fernando Monteiro. 

 

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