Sebastião Nery - João Bosco Tenório Galvão

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09/11/2009

Sebastião Nery - João Bosco Tenório Galvão

09/11/2009
Sebastião Nery - João Bosco Tenório Galvão

Publicado no Diario de Pernambuco - 09.11.2009

jbtg@uol.com.br

No início da década de 1970, Pernambuco começou com seus novos sonhos e novos dias. Os velhos tinham sido encerrados com a perda de poder das pessoas ligadas a Delmiro Gouveia, ao antigo antigo PSD e à banda boa da UDN em Pernambuco, liderada pelo Engenheiro Cid Sampaio, marco na história econômica de Pernambuco. Porém, nossa história atual é feita de sonhos e de loucos. Algumas pessoas, como Júlio Araújo, Pedro Cabral, Anchieta Hélcias, foram loucos e sonhadores contaminados por loucos que vieram de fora, como o Padre Lebret e Sebastião Nery entre outros, que despertaram e estimularam sonhos alucinantes, em nativos da República de Olinda. O Padre Lebret, como todo louco santo, era economista genial e fervoroso dominicano, padre de batina branca, de pureza e propósitos. De família de marinheiros, portanto entendedores de portos, reconheceu em Ipojuca um porto direcionado para um Brasil com vocação de gigante. Seria uma sucursal da Holanda (Roterdã), para movimentos cargueiros de cabotagem, pois no meu entender, o dominicano pensava que a América Latina era uma só. Encurtando a conversa, dito e feito. Sebastião Nery, que deve ter nascido de seis meses, pois é sempre apressado sem perder a beleza do verso, incorporou-se a mais de uma dezena de loucos sonhadores e levado por Anchieta Hélcias visitou o lugar idealizado pelo dominicano e participou do seu batismo, daí nascendo O Portode Suape! Mas, a pernambucanidade de Sebastião Nery, não ficou pelo porto quase longe do Recife. Também, em saraus de esquerda defendia o projeto do Centro de Convenções, capaz de abrigar na época 10.000 congressistas/dia a cinquenta dólares per capita... As esquerdas criticavam o projeto, que se mostrou pequeno menos de cinco anos de sua implantação.

Sebastião Nery, amigo de quase três décadas, é baiano de nascimento, mineiro de trânsito, daí sua mania de contar histórias e estórias, sendo também carioca igual ao papa Paulo II, que assim se apelidou. Lembro um dia de aniversário de Beatriz sua simpática companheira, quando comemorávamos, igualmente, o de Sarah Vaughan, O de Beatriz foi no Antonio's, o melhor bar da minha história boêmia. Depois do de Beatriz, arriba-se ao Canecão com a Sarah cantando happy days. Sebastião já estava universal, pois de Portugal tinha visto um mal-assombrado Salto no Escuro e a falta de liberdade do leste europeu aos kulags. Que dia! Quantas coincidências! De Sarah a voz melodiosa cheia de paixões, pois no ano da chegada de Brizola ao Rio, ela estava apaixonada por um amigo nosso. Depois fomos em direção ao Chico's Bar, com Milton Brandão, o maior contrabaixo do mundo e sua belíssima Aparecida, Paulo Carneiro do Diário de Petrópolis, a própria Sarah, Sebastião e Beatriz. Lá, por acaso, estava ao piano Bill Evans que deu uma canja acompanhando com o baixista a cantora em suas belas e tristes canções falando de amor.

Acompanhar Sebastião sempre me foi muito prazeroso, por suas histórias e suas amizades. Sendo baiano de nascimento, mineiro por gestos, carioca por universal, é igualmente pernambucano pelo afeto que nos dedica e por seus vínculos com nosso futuro, pois batizou Suape. Hoje, às 18h30, lança neste centenário Diario o livro A Nuvem - retrato de 50 anos de sua fabulosa carreira, vamos lá.

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