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27/05/2009Saudades do Rio - Arthur Carvalho
27/05/2009
Publicado no Jornal do Commercio - 27.05.2009
Eu estava me preparando para assistir ao jogo Flamengo e Vasco, no Maracanã, Lenita apareceu. Queria ir à domingueira da Gávea e apostar em Gualicho. Lenita era uma loira carinhosa, linda, de olhos verdes. Dúvida atroz: ver Dequinha (o craque do passe "toque de seda"), Dr. Rúbis, Índio, Barbosa e Ademir Marques de Menezes, no maior estádio do mundo, ou desfilar com a meiga namorada no Hipódromo, apostando em puros-sangues, feito o argentino Gualicho, alazão de 530 quilos, com um ponto de interrogação branco desenhado ao contrário, na testa, montado por Luiz Rigoni, ver brilhar a égua Platina, dirigida por J. Marchant, e Quiproquó por O. Ulhoa? Pensei em telefonar para o jornalista Fernando Mendonça ou o turfman Geraldo Carvalho, mas naquela época não havia celular. Consultei Sérgio Barcellos, o escritor que mais entende de cavalo de corrida no Brasil, e Sérgio me aconselhou: "Vá ao Prado e jogue no tordilho Batailleur, azar do 4º páreo, levado por L. Mezzaros."
Passei na casa de Lenita, na Viúva Lacerda, Humaitá, pegamos um táxi e fomos para a Gávea, tendo o cuidado de levar o radinho de pilha para ouvir Oduwaldo Cozzi, o maior speaker esportivo de todos os tempos, transmitindo Flamengo x Vasco, pela Rádio Continental, sob o patrocínio de Gillete, que, em sua voz anasalada e metálica, de dicção clara, fazia "o barbear perfeito".
Quando o lendário Gualicho galopou no cânter, voando baixo sobre a grama verde, apesar de contido, reluzindo ferraduras de alumínio, com o homem do violino no dorso, a arquibancada e a geral aplaudiram de pé. Cheguei a me arrepiar, sem saber por quem torcer, se por ele ou por Rigoni. No páreo anterior, o indócil Porfio chocou-se com a cerca interna, ao contornar a curva do hospital, patinando em pista de areia pesada, lançando Armando Rosas a distância. Chovia fino, a Lagoa Rodrigo de Freitas estava quase encoberta pelas nuvens cinzentas, e a imagem do Cristo Redentor, por densa neblina, mas eu queria mesmo era arriscar umas pules, no pangaré do treloso grego Mezzaros, enquanto Lenita curtia o charme (in)discreto das madames que posavam com elegância na tribuna de honra – e bota honra nisso.
A largada para o 4º páreo foi dada com atraso – e anulada. Os animais voltaram ariscos e nervosos para seus boxes e, depois de muito custo, foi autorizada a segunda partida, para os 2.000 metros, tendo Batailleur pulado em último lugar. Mezzaros fechou a raia até a metade da reta oposta, quando começou a ganhar posições, ultrapassando um por um os quinze adversários que formavam o lote. Na entrada da reta final, ele galgou a segunda posição e veio disputando cabeça a cabeça com o ponteiro – até cruzarem o disco de chegada. Ninguém sabia quem tinha vencido a corrida e tivemos que aguardar o resultado do photochart. Momentos de expectativa e angústia até Ernani Pires Ferreira, estimado locutor oficial do Jockey Club Brasileiro anunciar a vitória de Batailleur, por focinho. Taquei um beijo em Lenita, que me abraçou emocionada. Não me lembro quanto Batailleur pagou (sei que até o placê foi gordo), mas era uma fortuna para um jovem estudante liso de colégio interno de 17 anos. "Vamos comemorar no Bife de Ouro", convidei Lenita. "Não tenho vestido para jantar no Copacabana Palace", queixou-se ela, como toda mulher que se preza, nessas ocasiões. "Não é problema, conheço uma dona de boutique da Rua Cândido Gaffré, na Urca."
O melhor da festa veio depois, e vou contar pra bulir com Fernando Monteiro. Ao entrarmos no Hotel Copacabana, encontramos Paul Newman tomando um drinque com Sophia Loren na pérgula da piscina, tendo Lenita colhido autógrafo da bela italiana. Sim, ia me esquecendo: Flamengo 1x0 Vasco, gol do paraguaio e artilheiro Benitez.
Eu estava me preparando para assistir ao jogo Flamengo e Vasco, no Maracanã, Lenita apareceu. Queria ir à domingueira da Gávea e apostar em Gualicho. Lenita era uma loira carinhosa, linda, de olhos verdes. Dúvida atroz: ver Dequinha (o craque do passe "toque de seda"), Dr. Rúbis, Índio, Barbosa e Ademir Marques de Menezes, no maior estádio do mundo, ou desfilar com a meiga namorada no Hipódromo, apostando em puros-sangues, feito o argentino Gualicho, alazão de 530 quilos, com um ponto de interrogação branco desenhado ao contrário, na testa, montado por Luiz Rigoni, ver brilhar a égua Platina, dirigida por J. Marchant, e Quiproquó por O. Ulhoa? Pensei em telefonar para o jornalista Fernando Mendonça ou o turfman Geraldo Carvalho, mas naquela época não havia celular. Consultei Sérgio Barcellos, o escritor que mais entende de cavalo de corrida no Brasil, e Sérgio me aconselhou: "Vá ao Prado e jogue no tordilho Batailleur, azar do 4º páreo, levado por L. Mezzaros."
Passei na casa de Lenita, na Viúva Lacerda, Humaitá, pegamos um táxi e fomos para a Gávea, tendo o cuidado de levar o radinho de pilha para ouvir Oduwaldo Cozzi, o maior speaker esportivo de todos os tempos, transmitindo Flamengo x Vasco, pela Rádio Continental, sob o patrocínio de Gillete, que, em sua voz anasalada e metálica, de dicção clara, fazia "o barbear perfeito".
Quando o lendário Gualicho galopou no cânter, voando baixo sobre a grama verde, apesar de contido, reluzindo ferraduras de alumínio, com o homem do violino no dorso, a arquibancada e a geral aplaudiram de pé. Cheguei a me arrepiar, sem saber por quem torcer, se por ele ou por Rigoni. No páreo anterior, o indócil Porfio chocou-se com a cerca interna, ao contornar a curva do hospital, patinando em pista de areia pesada, lançando Armando Rosas a distância. Chovia fino, a Lagoa Rodrigo de Freitas estava quase encoberta pelas nuvens cinzentas, e a imagem do Cristo Redentor, por densa neblina, mas eu queria mesmo era arriscar umas pules, no pangaré do treloso grego Mezzaros, enquanto Lenita curtia o charme (in)discreto das madames que posavam com elegância na tribuna de honra – e bota honra nisso.
A largada para o 4º páreo foi dada com atraso – e anulada. Os animais voltaram ariscos e nervosos para seus boxes e, depois de muito custo, foi autorizada a segunda partida, para os 2.000 metros, tendo Batailleur pulado em último lugar. Mezzaros fechou a raia até a metade da reta oposta, quando começou a ganhar posições, ultrapassando um por um os quinze adversários que formavam o lote. Na entrada da reta final, ele galgou a segunda posição e veio disputando cabeça a cabeça com o ponteiro – até cruzarem o disco de chegada. Ninguém sabia quem tinha vencido a corrida e tivemos que aguardar o resultado do photochart. Momentos de expectativa e angústia até Ernani Pires Ferreira, estimado locutor oficial do Jockey Club Brasileiro anunciar a vitória de Batailleur, por focinho. Taquei um beijo em Lenita, que me abraçou emocionada. Não me lembro quanto Batailleur pagou (sei que até o placê foi gordo), mas era uma fortuna para um jovem estudante liso de colégio interno de 17 anos. "Vamos comemorar no Bife de Ouro", convidei Lenita. "Não tenho vestido para jantar no Copacabana Palace", queixou-se ela, como toda mulher que se preza, nessas ocasiões. "Não é problema, conheço uma dona de boutique da Rua Cândido Gaffré, na Urca."
O melhor da festa veio depois, e vou contar pra bulir com Fernando Monteiro. Ao entrarmos no Hotel Copacabana, encontramos Paul Newman tomando um drinque com Sophia Loren na pérgula da piscina, tendo Lenita colhido autógrafo da bela italiana. Sim, ia me esquecendo: Flamengo 1x0 Vasco, gol do paraguaio e artilheiro Benitez.
