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03/07/2011São João dormiu ... - Pedro Nunes Filho
03/07/2011
Publicado na Folha de Pernambuco - 03.07.2011
São desalentadores, eventos pretensamente culturais montados em cidades interioranas durante os festejos juninos, época em que deveria ser tocada e cantada música que nasce das entranhas da terra e fala de sentimentos, costumes e histórias do povo. Ao invés disso, o que se vê é uma verdadeira profanação de um território sagrado onde vicejaram belíssimas composições musicais de Dantas, Teixeira e Marcolino, na voz inconfundível de Gonzaga, indiscutivelmente o melhor cantor nordestino. Suas músicas deveriam servir de referência para novas gerações de artistas. Infelizmente, os responsáveis por eventos culturais tendem a valorizar o que não presta, sem enxergar a imensa riqueza existente no chão onde pisam.
As megafestas financiadas pelo Ministério do Turismo, além de desperdício de dinheiro público, invertem valores e contribuem para destruir bens culturais que restam escassos. No centro de cada cidadezinha, montam-se imensos palcos para abrigar bandas barulhentas, algumas espalhando verdadeiros “dejetos musicais”. Achando pouco, artificializam os palcos com uma parafernália de luzes multicores que piscam loucamente, contrastando por completo com a simplicidade da vida sertaneja. Longe de desenvolver a criatividade e incentivar talentos, essa nova onda de festas juninas, artificiais e sem vínculo com a alma do povo, num estalo de tempo destrói um mundo de ricas tradições nordestinas. Trata-se de mudança radical de costumes, praticamente sem volta e fortemente apoiada por autoridades públicas que, ao invés de investirem em valores, contribuem para desvincular o povo de suas raízes.
Depois, quando grupos de jovens alienados sentam-se em praças públicas para fumar maconha e consumir crack, as mesmas autoridades que investem dinheiro público na inversão de valores são as primeiras a se mostrar incomodadas e escandalizadas com os novos tempos, que elas burramente estão ajudando a construir na contramão da história.
Ao invés das tradicionais festas de rua que democratizam o espaço urbano e possibilitam convivência harmoniosa da população, começa a se espalhar a moda de se montar camarotes nos locais dos festejos, criando um apartheid odioso entre ricos e pobres, em terra onde não deveria existir segregação social porque os pobres dos nossos sertões são limpos, educados, ordeiros e os ricos são apenas pretensamente ricos. Nada mais!
As distorções são tamanhas que já estão até inserindo nas programações juninas Carnaval baiano, com trio elétrico puxando foliões. Enquanto isso, as fogueiras de São João e outros festejos típicos vão se tornando coisas do passado.
Merecem aplausos programações que valorizam tradições juninas destinadas ao povo da cidade e a turistas que aparecem e ficam hospedados em pousadas e hotéis das cidades. Perniciosas são as multidões que chegam à noite e vão embora de madrugada, deixando as cidades mal cheirosas, cobertas de lixo e dejetos. Esse tipo de turista não consome porque já traz suas bebidas debaixo do braço, não come porque chega alimentado e não paga hospedagem porque vai embora antes do amanhecer. Gastar com megaeventos para multidões que não injetam dinheiro na economia local é jogar dinheiro fora. Puro exibicionismo de administrações perdulárias. Escovação de vaidades. Um grande equívoco financiado com dinheiro público que deveria ser aplicado em educação.
