Santa ignorância - Clávio Valença

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04/03/2010

Santa ignorância - Clávio Valença

04/03/2010
Santa ignorância - Clávio Valença

Publicado no Jornal do Commercio - 04.03.2010

Diferente de Drummond, que chegou tarde num mundo muito cedo, cheguei cedo num mundo madrugador, que corre para as noites sem escalas nas manhãs ou tardes, em velocidade incompatível com minhas pernas de velho.

Cada dia mais jurássico, por mais que me proteja, ainda sou surpreendido pela tecnologia e sua influência nos costumes e na linguagem falada e escrita, sobretudo nesta.

Faz anos, não uso relógios, que somente serviam para confirmar meus atrasos, o que proporcionou-me, durante anos, o receber de inúmeros como presentes. Alguns clientes notando que não os tinha, não resistiam e, logo aproximava-se o Natal, ou meu aniversário, para alguns que conheciam a data, e chegavam as maquininhas.

Não aprendi a ligar ou desligar o videocassete, salvo tirando o fio da tomada. O mesmo com o atual DVD.

Adolescente, matriculado em escola de datilografia, logo fui expulso por preferir as pernas roliças de uma colega sentada à minha frente, que olhar os enfadonhos e repetitivos a, s, d, f, e g, grafados em papel que deveria copiar. Não preciso dizer que, incompetente para a mecanicidade datilográfica, pior para as coisas do computador, que envolvem artes do diabo.

Ao telefone celular ainda não me rendi. Posso até pedir à minha mulher, que se pretende modernosa, para fazer uma ou outra ligação. Feita, sei falar e é só. Não me faz falta. Tenho em casa e no escritório aparelhinhos antiquados que falam e escutam sem inveja dos sem fio. Bastam-me. E levam algumas vantagens: não sou localizado, se em meus bares, ou quando não desejo, não gravam recados a cujas respostas não me obrigo.

A falta de ritmo impede-me a utilização de maleta de rodinhas. Morro de inveja quando, em aeroportos, vejo caminhar elegantes aeromoças, peitos pra frente, bundas pra trás, ao toc-toc dos saltos, perseguidas pelas malinhas cabresteiras. Quanto mais rápidas umas, também mais ligeiras as seguidoras. Se param as primeiras, estancam as segundas. Sem erro. Comigo o caldo engrossa. Não consegui, em várias tentativas, ir além de três ou quatro passadas, e elas - de tipos diversos - viram e caem. Não há como evitar.

Mas, não me sentia retrógado. Algumas invenções, certo que da primeira metade do século passado, adotei e jurava dominar-lhes o manuseio. A televisão, por exemplo, de cuja imagem dependo em madrugadas insones, sem disposição para a leitura. Esta semana, contudo, meus conhecimentos, postos à prova, frustraram-me. Por mais fizesse e não conseguia mudar de canal. Corri para a sala e o problema se repetiu. Nada a fazer, salvo, dia seguinte, apelar para a competência da portaria. Liguei o interfone - útil equipamento que manejo bem - e perguntei tudo para o porteiro: - Se havia queixas de outros apartamentos? Se o Condomínio fazia os consertos? Se mexeram na antena? Se era coletiva? Explicou-me que os técnicos das fornecedoras dos sinais a cabo são os únicos autorizados a tocar, cada um, no seu próprio material. Não há qualquer queixa de outros moradores do prédio. Ante minha desolação, talvez com pena de minha ignorância, tentou confortar-me, para o que indagou: - Qual a provedora? Não obteve resposta. Eu não sabia, nem sei. Misericordioso perguntou: - O sinal que o senhor recebe é analógico ou digital?

Pensei em explicar-lhe que sua curiosidade a nada levaria. Dizer-lhe que as digitais diferem de pessoa para pessoa, nada o autorizando a aplicar, no meu caso, técnicas que deram resultados noutras situações. Quanto a ser analógico ou não, também nada significava. Se nunca entendi bem as coisas da análise lógica, de sujeitos, predicados e objetos, não conseguiria, por mais tentasse, convencê-lo da inutilidade da informação.

Desisti. Desliguei.
 

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