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29/07/2010Saltimbanco - João Humberto Martorelli
29/07/2010
O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque está apresentando a exposição Picasso – Temas e Variações. São dezenas de gravuras relativas aos sucessivos períodos de produção do pintor, que as iniciou pela série os saltimbancos em 1904. A motivação artística é de origem simples: Picasso adotou as plataformas desses ensaios para desenvolvimento em suas pinturas e quadros, e a temática é a da busca de coincidências com o cotidiano da vida do artista e das pessoas com ele relacionadas. Mas a genialidade dos traços vai no fundo da alma.
Na gravura No Circo (1905-6), duas figuras bailam harmoniosamente no dorso de um cavalo, mas se pressente que os pés não o tocam, sequer roçam o animal, como se um ímã mantivesse o equilíbrio da interinidade entre o belo e a verdade, sem espaço para a descrença científica. Em Salomé (1905), ainda na série saltimbancos, a história é concebida em novo contexto, Salomé parecendo não uma bailarina, mas uma artista de circo diante de um Herodes aparvalhado, os traços nus da mulher em evolução no centro da cena roubando, com seus perfeitos contornos, o significado da morte. Seguem-se delicadas gravuras que enfocam o artista e seus modelos de escultura, representando nova fase do mestre, já no pós-cubismo e delineando expressões naturalistas e neoclássicas. A obra-prima vem em seguida, nos trabalhos da série Minotauro. Neles, borbulhando, aparecem os sombrios pensamentos e desejos do próprio artista, como queria o surrealismo, surgindo a lascívia, a violência, o desespero, a culpa: o Minotauro cego é, ao mesmo tempo, arrogante e miserável, dá pena e raiva, no Bacanal com o Minotauro, a mulher, em decúbito dorsal sobre o colo do monstro, expõe o sexo e os seios, enquanto os convivas brindam o momento, e o Minotauro cobrindo a centáuride é a representação do ato sexual como pura violência.
Todas as mulheres de Picasso vão para as obras, mesmo essas, tão preparatórias, bastando dizer que a exposição começa por três gravuras feitas a pretexto de retratar uma veste com que presenteara uma delas (já não me lembra qual). Mas lembro perfeitamente que Marie-Thérèse Walter, sua amante, é retratada como a toureira no encontro surreal e admiravelmente sexual com o touro (o próprio artista), enquanto que o cavalo ferido se diz representar Olga Picasso, a mulher traída do pintor. Não se sabe o que diz o olhar do touro entre a lascívia e a traição, é perfeito: o cavalo esbugalha os olhos de dor, a mulher fecha os olhos de prazer, e o touro mantém o olho aberto, sem expressão. Também aparece Dora Maar, a mulher angustiada, cuja importância na vida do artista - da mulher e da militância política - todos conhecem. Françoise Gilot é a mulher da maturidade, embora ela própria fosse jovem e almejasse um lugar ao sol no mundo artístico (Picasso tinha 62 anos, ela 21, quando o romance teve início, logo após o término com Dora), Gilot deu-lhe momentos de calma e inspiração para diversos trabalhos que aparecem na exposição, retratando-a de forma serena, burguesa até. Mas a maturidade ainda não era o fim, era uma transição: faltava a mulher da felicidade, Jaqueline, que, aos 27, iniciou a relação mais duradoura com o artista, então com 72: ficaram 20 anos juntos (casaram-se em 1961, após 7 anos de convivência), até a morte do pintor, em 1973. Picasso encantou-a em Jaqueline como Noiva (1961), terna, terna, terna.
Por que escrevo sobre Picasso? Vez em quando, busco refúgios. A arte, sim, um refúgio, um pouco de alma neste cansaço enorme da concreta cena brasileira. Mas hoje ainda, talvez amanhã, voltará a indignação, o verbo guerrilheiro. No momento (deixai-me, ó vida, deixai-me, leitor), quero ser apenas um saltimbanco.
