Salazar, o rejeitado - João Bosco Tenório Galvão

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06/12/2010

Salazar, o rejeitado - João Bosco Tenório Galvão

06/12/2010
Salazar, o rejeitado - João Bosco Tenório Galvão

Publicado no Diario de Pernambuco - 06.12.2010

jbtg@uol.com.br

António de Oliveira Salazar, o mais notável ditador de língua portuguesa, desde o início de sua vida se deu bem na política e foi péssimo no quesito do amor. Nasceu em abril de 1889 no diminuto povoado do Vimieiro. De família católica foi batizado no mês de maio sendo padrinhos António Xavier Perestrelo Corte Real e a sua filha Maria de Pina Perestrelo. A família Perestrelo Corte Real era riquíssima, dona de inúmeras propriedades rurais no centro de Portugal. O pai de Salazar, António de Oliveira, feitor numa das propriedades dos Perestrelo, gozava da amizade dos patrões o que privilegiou o futuro ditador. Tornou-se seminarista como solução encontrada pelo Padre de Vimieiro para continuar os estudos.

A Igreja investiu no promissor jovem aceitando-o no Seminário de Viseu, onde construiu forte base cultural que lhe seria imensamente útil no cenário político. A vocação forçada era frágil. Na idade própria e fora dos muros eclesiásticos os hormônios começaram ase manifestar dirigindo as atenções do jovem à vida mundana. Seus olhos voltaram-se numa guinada ligeira para os encantos de Felismina de Oliveira, que detonou a vocação de Cardeal ou Papa do jovem estudante. As aventuras platônicas de Salazar foram breves, pois o que lhe importava era compreender Portugal sob a ótica de suas convicções políticas e religiosas, onde qualquer que fosse o regime, monárquico ou republicano, a Igreja deveria se fazer presente. Em 1910, aproveitando amizades feitas no Seminário e o apoio da família Perestrelo, inscreveu-se na Universidade de Coimbra passando a viver sob influência de seus estudantes e neles provocando grandes indagações. As questões lançadas na Universidade de Coimbra eram as que tratavam do futuro português cuja realidade era confusa. Salazar em suas análises despertou curiosidade da elite portuguesa e de boa parte dos quinhentos discentes de Coimbra, que, em breve, formariam a classe dirigente da nação dos fados. Porém, essa faceta da vida do futuro ditador, agora, não nos interessa. O que sabemos é que para estudar tinha que trabalhar! Sua fama acadêmica conferiu-lhe o magistério privado e o convívio na casa dos Perestrelo à vivência na sociedade coimbrã. Na condição de mestre adquiriu legião de admiradoras. Tinha orgulho e ambição, pois único a falar sobre o amanhã lusitano. O sucesso acadêmico o fez esquecer a origem pobre e o seu lugar na pirâmide social. Aos 24 anos do rol de suas alunas particulares destacava a bela Júlia Perestrelo, 16 anos, filha de sua madrinha e a predileta da família. Salazar apaixonado perdeu a quietude.

As mãos, a nuca alva e a maneira de sorrir da amada sempre com os tornozelos à mostra o levava ao mundo dos sonhos. No primeiro beijo perdeu o juízo e a prudência. Descoberto o caso amoroso pela madrinha protetora foi advertido para voltar ao seu lugar. Reincidente foi expulso da casa mecenas. A rejeição dos Perestrelo e da bela Júlia marcou-o a vida inteira. Foi morar na Rua dos Grilos com seu amigo Manuel Cerejeira que viria a ser o Cardeal Patriarca de Lisboa. Ficou sem laços amorosos enquanto em Coimbra surgia um ditador!

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