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27/05/2011Realidade - Maria Lúcia Nogueira
27/05/2011
Publicado na Folha de Pernambuco - 27.05.2011
A peitica alvoroçada cantava com alegria. Ninguém entendia. A passarinhada voava, arrumando seus ninhos, cobrindo seus filhotes, pinoteava no ar quente, seco pelo barro. Tanto diz o tempo e só ele vê e decifra o que sente. A caranguejeira saiu do seu esconderijo, veio apressada pelo terreiro limpo, em busca de proteção, sem bater, tentou entrar pela porta da frente, na casa que a si, lhe pareceu segura. Porém, o dono, sem dor, nem piedade, expulsou-a! E, lá vem mais uma e mais outra.
O homem experiente em idade, sábio nos sinais da natureza, tirou o velho chapéu, coçou a cabeça e ficou a meditar no que via. Mas será que algo estava para acontecer em plena seca, sem indícios de chuvas? Pensou noutra coisa que tinha lhe acontecido na noite anterior.
De madrugada, acordou e, sem acender o lampião, andou na escuridão pela casa que conhecia. Sentiu que, ao passar entre duas cadeiras suas pernas tocaram uma fina teia de aranha que ligava uma cadeira à outra. Assustado, acendeu o candeeiro e viu que a pequena aranha abandonara sua velha casa, e noutro lugar, tecera outro abrigo. Parecido com uma capelinha de flor, como a se proteger de algum perigo iminente. O que, para o velho matuto era algo inconcebível. Todavia, algo despertou na sua mente, o imprevisível não era impossível a Deus.
O dia passou quente, deixando tudo morto, sem vestígios de vida, a vida se escondia do senhor onipresente: O sol escaldante que estalava a terra, evaporara a água, matava os animais.
À noite, o homem, cansado da lida, chegou-se ao batente da porta, olhou o horizonte, escuro feito breu, balançou a cabeça e foi dormir. Deitou-se, dormiu pouco, pois com os olhos queimando de sono foi acordado por um grande barulho, pensou que fosse o mundo se acabando, porém vieram mais estalos. Desta feita, mais forte, pois estava totalmente acordado para ouvir. Foi andando para fora do quarto e viu que o mesmo estava alumiado.
Olhou para as telhas e viu que eram relâmpagos.
Mas como, se fora dormir, sem nenhum prenúncio de chuva? Afinal, estava em pleno mês de outubro! Mês seco, sem água. Em bonança, só o calor. O aviso fora dado a todos, mas só os pequenos seres souberam sentir e, ele, velho homem do mato soubera interpretar os sinais que vira. Restava esperar pelo dia que demoraria a raiar, para ver a água escorrendo na terra, a passarinhada, feliz, cantando, as árvores lavadas, balançando-se sob o peso dos pingos da chuva, o gado, refestelado, bebendo água do açude, que no dia anterior estava esturricado, oco, sem vida.
A estiagem severa acabara com o pouco de água que for represada no açude. O mormaço trouxera indolência ao povo que morava nas casas simples de barro e cipós, porém, com as chuvas, tudo se volta para a terra, vida para suas vidas. Nesse momento, sozinho na sua pequena casa, o homem pensava na coivara de fogo e nas trovoadas que ele vira, parecidas com essas, apenas uma única vez, quando criança há quase oito décadas atrás, lembrava-se que ficara assustado com o que vivenciou.
Refletia, agora, que tudo estava mudado, pelas mãos dos homens, que altera a natureza, com queimadas, bloqueios dos rios, adultera a terra com ácidos, inunda os mares com veneno, contamina os alimentos e animais, dilacera o âmago da vida, poluindo o ar, o céu, a terra e, ainda, pasme, sem querer aperceber-se do tamanho de suas atrocidades, queima a memória dos mais velhos, destrói a história dos seus antecedentes, não restando a quem fica na terra, nada além do momento, vazio, sem perspectivas a decifrar no horizonte que amanhece.
