Raiva e rancor - João Bosco Tenório Galvão

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16/08/2010

Raiva e rancor - João Bosco Tenório Galvão

16/08/2010
Raiva e rancor - João Bosco Tenório Galvão

Publicado no Diario de Pernambuco - 16.08.2010

jbtg@uol.com.br

Raiva só a fingida, pois a sentida é uma forma de sermos submissos. A raiva de alguém nos converte em prisioneiros desse alguém, pois seremos conduzidos emocionalmente pela poderosa vítima de nossa raiva a quem conferimos poderes. A raiva sentida é silenciosa como deveriam ser todas as prisões. Por silenciosa tem vida longa, não externada é corrosiva, fica nos devorando aos poucos como pereba de perna. Em oportunidades a raiva é mera reação aos brios feridos ou orgulhos frustrados. Tem raivas imensas e raivas minúsculas, pois como sentimento a raiva varia de pessoa a pessoa. Quanto mais intenso esse sentimento menos equilibrado é o seu portador, pois as pessoas com fino discernimento nunca tem raiva, quando muito Fingem, simulam, como hábil estratégia de convencimento. A raiva sentida é troco tolo da alma, é vingança diante de agressões que podem ser imaginárias. Como sentimento a raiva é resposta às circunstâncias que pensamos serem hostis, embora a raiva possa ter como parteira a inveja, que é o desejo frustrado diante de brilho alheio. A raiva além de matar seu possuidor visceralmente pode resultar em prejuízos externos, pois o raivoso é amargo, chegado à violência física ou verbal. A raiva quando persiste muda de sexo, vira rancor, sendo dominada e extinta se converte em perdão. A raiva tem péssimas companhias. Ora anda com a agressividade, ora dá as mãos à aflição. Gosta de meter medo e provocar mágoas e lágrimas. A raiva vem a ser diabólica, pois inimiga da tolerância, só provoca outro sentimento nefasto: a discórdia que separa os iguais.

A raiva em todas suas formas e apelidos provoca angústias e ansiedades, acaba amizades e tem o poder de açoitar o amor. Quando fria a raiva provoca terríveis sofrimentos, pois se esmera na provocação da dor. Em alguns é loucura transitória, noutros lesão permanente, pela eterna frustração diante da realidade que se pensa insatisfatória por não ser compreendida. Em nosso quotidiano os exemplos de raivas e rancores sãofrequentes. É o garanhão ameaçado de pagar alimentos ao fruto de suas "conquistas", sente-se contrariado e se deixa possuir pela raiva, é capaz de esfolar e matar. Recentemente um cidadão que teve o retrovisor de seu carro quebrado num pequeno acidente, tomado da raiva própria dos imaturos, possuído por ódio bestial, assassinou um pai de família diante de sua prole. Recentemente, num dos bares do Recife, torcedor frustrado pela derrota de seu time e invejoso da festa de torcedor adversário, desferiu-lhe, raivosamente, dois tiros na cabeça. No grande Recife, nesta semana, um marido abandonado insistindo em manter o controle que pensava ter sobre a mulher, decepcionado e raivoso com seu insucesso, tocou fogo na pretensa amada. A insegurança e a incompreensão diante do abandono como fato (amoroso?) fez nascer a raiva, a destruição e o crime. Os sábios e maduros não se permitem tal sentimento, pois são governados pelos sentimentos da prudência, do equilíbrio e da maturidade que lhes conferem leveza d'alma.

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