Racismo na literatura - João Humberto Martorelli

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04/11/2010

Racismo na literatura - João Humberto Martorelli

04/11/2010
Racismo na literatura - João Humberto Martorelli
Publicado no Jornal do Commercio - 04.11.2010

Insisto no tema da última coluna por uma boa razão. Parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) considerou inadequada a obra de Monteiro Lobato, Caçadas de Pedrinho, em virtude de suposto racismo contido nas descrições que faz de peripécias de Tia Nastácia, comparada a uma "macaca de carvão" quando sobe rapidamente, assustada, em uma árvore, para fugir de onças ferozes. O parecer afirma que a obra contém "menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano". Fiquei chocado. A obra infantil de Monteiro Lobato forjou meu amor pela literatura e o de toda uma geração, além de muitos dos meus valores. De Tia Nastácia, guardo a fraternidade de sua convivência com Dona Benta e demais personagens, seu devotado e recíproco amor com Pedrinho e Narizinho, suas dúvidas quanto à sanidade da boneca de pano, seu espanto diante da sabedoria do Visconde de Sabugosa, os deliciosos quitutes de sua cozinha, mas, sobretudo, sua plenitude como personagem, jamais tratada desigualmente em decorrência da raça. Ao contrário, a personagem inspirava respeito, carinho, amor.

Diversas obras na literatura brasileira podem, em tese, despertar as mesmas preocupações de conteúdo racista. Machado de Assis, um dos escritores mais analisados no âmbito deste debate, trata os negros, em muitas partes de sua obra, de forma quase desdenhosa. Em Dom Casmurro, por exemplo, ao mencionar os escravos que sua família trouxera da roça para o Rio de Janeiro, aponta Tomás a Escobar como "aquele preto que ali vai passando, é de lá". Hoje em dia, não é correto se chamar preto, sendo preferível negro. E o que dizer dos nomes que Machado dá aos escravos: João Fulo, Maria Gorda, Pedro Benguela, Antônio Moçambique. Dir-se-ia que, no contexto da obra, são apelidos ou nomes de nação, mas, vistos assim, sob a perspectiva de hoje, trata-se de desconsideração com seres humanos, desprezo com sua identidade, galhofa racista.

Na poesia, os exemplos são múltiplos. Vinicius diz que o samba nasceu lá na Bahia e se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração. A contraposição é irritante no contexto atual (a poesia é o intelecto, o coração é o gingado...)! Lembremos Bandeira com Irene no céu: "Irene preta, Irene boa, Irene sempre de bom humor. Imagino Irene entrando no céu: licença, meu santo! E São Pedro bonachão: Entra, Irene, você não precisa pedir licença". É como se a pretona só existisse para irradiar bom humor, como se ela não pudesse ter as qualidades e atributos normais de qualquer pessoa, além do que, para entrar no céu, tinha que pedir licença a um branco. E outra vez o preto politicamente incorreto na palavra mágica da obra de arte. Mas a poesia usa o negro ou a negra também de forma errada. Quem não conhece a maravilhosa rítmica de Nega Fulô, de Jorge de Lima? Começa pelo nome do poema, já nem é negra, mas "Nega" Fulô. E a nega fulô não passa de uma "negra bonitinha" que forra a cama da Sinhá, penteia os seus cabelos, cata cafuné, conta histórias para dormir, a perfeita mucama, só que termina roubando, é o que dizem, o frasco de perfume, e o próprio Sinhô, quando foi açoitar a Nega, vendo-a nuinha, foi também roubado. De corpo e alma. Pois é, não é apenas em Monteiro Lobato. Na literatura, negro é escravo de nome engraçado, preta de bom humor e ladra de objetos e de homens, perfeito objeto sexual.

Podemos negar a força literária de Machado, Vinicius, Bandeira e Jorge de Lima em razão dos trechos acima? Há racismo nos textos? Difícil dizer, afirmar de maneira peremptória. Há de se ter aí certa condescendência com o espírito de época, com a quase certa resignação conivente dos autores com a escravatura e com a mansidão da raça negra.

De qualquer maneira, é preciso ficar atento às releituras. Saber ler em seu tempo, saber ensinar em seu tempo. De minha parte, cada vez me impressiona mais o racismo no Brasil.
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