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22/02/2010Quando partires para eternidade... - Manoel Fernandes Maia
22/02/2010
Publicado na Folha de Pernambuco - 22.02.2010
Escrevi em um dos meus livros, Pedaços de Mim, “Quando partires para eternidade, levas contigo a minha eterna e descontrolada saudade”. Minha única tia materna leu e disse: “Isto é para mim”. Respondi, “Sim, tia”. Ela já se foi das nossas vidas, e a frase ficou a serviço de outros entes queridos.
Estou em Toronto. Vim mais uma vez ver minha filha, que decidiu ser cidadã canadense. Talvez não tenha suportado a violência do Recife, pois sempre fala dela. Talvez não tenha suportado os mexericos de uma cidade provinciana, que tanto amamos. Talvez não tenha suportado o nosso amor, pois amar demais incomoda.
Recebo um telefonema de meu irmão, minha mãe há anos com Alzheimer, está numa UTI, convalescendo com aparelho que respira por ela.
Nossa reação é de voltar imediatamente, mas meus filhos e meu próprio irmão acham que devo aguardar um pouco. Foi o que fiz e as notícias são de que ela melhorou, reagindo bem as medicações tão competentemente prescritas pelos médicos do Hospital Memorial, que por sinal é padrão em atendimento.
Neste exato momento, aquecido num apartamento, pois lá fora a temperatura está entre 10 a 20 graus abaixo de zero, começa a rodar um filme em meus pensamentos. A leitura que faço e as imagens que se encaixam, é que minha mãe foi por demais dedicada.
Principalmente na minha infância, onde eu tinha crises enormes de asma, lembro-me bem dela à minha cabeceira ou mesmo dentro de um balão de oxigênio a respirar o mesmo ar que eu tanto precisava naquele momento. Fatos marcam, e ela como toda mãe dedicada me marcou muito.
Era uma pessoa bonita. Recebia muito bem tanto os amigos como personalidades que nos visitavam. Era cheia de vida, encantadora. Cantava e tocava violão muito bem. Também tocava sanfona, pandeiro e teclado. Amava a música.
Caso tenha cometido injustiças foi por erro involuntário, por falta de conhecimento do que aquilo vinha a significar à minha pessoa. Não tenho nada a perdoar e sim ser perdoado pelas noites que mal dormiu, esperando acordada que eu voltasse das farras da juventude.
Não gosto de vê-la no estado em que se encontra. Fujo deste quadro por me fazer tanto mal. Ver ser seu estado atual num leito, morta-viva, e rezar que isto prossiga é ser egoísta demais. Entretanto, esta decisão final é de Deus e ele sabe o que faz.
Gostaria que o filme pudesse voltar atrás para eu mudar certas coisas, com a experiência que os anos me deram. Como gostaria de lhe dizer ainda mais vezes que sempre lhe amei muito e que as mágoas o tempo iria apagar.
Escrevo hoje para que os que me lerem valorizem ainda mais suas mães enquanto elas estiverem presentes e lúcidas.
A frase que citei no início, repito “Quando partires para eternidade levas contigo a minha eterna e descontrolada saudade”.
