Prato frio - Arthur Carvalho

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24/03/2010

Prato frio - Arthur Carvalho

24/03/2010
Prato frio - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 24.03.10

“Alô! Não feche negociação com aquele cara. Ele não paga a ninguém, é um caloteiro. Feche com Ricardo. Paga atrasado, mas paga.”

Ao que parece, o cidadão que assim berrava ao celular, em pleno restaurante, falava com o representante comercial de sua firma, estabelecida em João Pessoa. Muito bem, é direito que lhe assiste, mas o que o pessoal que almoçava no restaurante tinha a ver com seus negócios? Que direito ele tinha de perturbar a refeição e a conversa dos seus vizinhos de mesa, o trabalho das garçonetes, o sossego dos solitários, o namoro dos casais? No fundo, no fundo, ele acha que seu exibicionismo lhe confere status profissional e social.

Outro dia, fui retirar os autos de um processo na Vara Cível, a moça pediu o endereço do nosso escritório e o número do telefone, eu dei tudo, ela exigiu ainda o número do celular, quando eu disse que não tinha celular, ela me olhou incrédula e perplexa, e quedou imóvel, esperando que eu deixasse de brincadeira de mau gosto, como se estivesse falando com um dinossauro. Percebendo o constrangimento, Cacilda Matias, nossa estagiária, forneceu o dela, resolvendo o problema.

No comércio é a mesma coisa. O balconista anota seu nome completo, estado civil, RG, CPF, residência, profissão, endereço residencial e comercial, tipo de sangue, telefone de casa e do trabalho. Não satisfeito, exige o indefectível celular. Na verdade, ninguém é obrigado a fornecer telefone residencial e celular a quem não conhece.

Um corretor de imóveis esteve em nosso escritório, eu não havia chegado, sentou na sala da frente e ficou me esperando. Como demorei, pediu meu celular à recepcionista, ela disse que eu não tenho. Ele telefonou, fazendo a mesma pergunta a um amigo meu diante dela e dos nossos clientes. Até que meu filho, Carlos, aproximou-se e disse-lhe que eu não tenho celular.

Numa coisa me diferencio de certos usuários de celular: apesar de não usá-lo, quem quiser falar comigo, me encontra. Quando saio do escritório, digo às meninas aonde vou, onde elas devem me procurar, o mesmo acontecendo quando saio de casa. Enquanto isso não consigo me comunicar com muitos donos de celular que dão, quase sempre, caixa postal, fora de área ou ocupado. Outra desvantagem do celular é que não funciona ou funciona mal em algumas áreas. Nada pior do que tratar assunto sério com celular falhando ou cortando.

O competente ourives português Pedro Sá, que fez meu anel de formatura, me procurou um dia, queixando-se de que comprou um terreno no Prado, quitou todas as prestações e o dono do imóvel não queria assinar a escritura pública e definitiva de compra e venda, conforme o acordado no instrumento particular de recibo de sinal. Perguntou o que fazer, aconselhei-o a entrar com ação de reintegração de posse contra o vendedor. No dia seguinte, ele me procurou: "Sabe de uma coisa, doutor? Eu estive pensando: quando cheguei ao Brasil já havia esse lote. Então deixa ele aí onde está. Não quero briga". Confesso ao leitor que não entendi bem o que ele quis dizer. Me inspirei nesse lusitano, Pedro Sá, quando Anibal Rolemberg perguntou por que eu não usava celular. Respondi que meus avós e meus pais nasceram, se criaram, viveram e morreram sem celular, então não há motivo para eu ser escravo desse aparelhinho chato, inconveniente e infernal. Quero almoçar, jantar e dormir em paz. Não quero que minha feijoada esfrie no prato.

Segundo Aldous Huxley, ao contrário da ilha onde reinam a justiça social, política e econômica, a liberdade de pensamento, concebida por Thomas Morus no século 14, vivemos num ambiente de pesadelo e os mecanismos criados para o bem-estar dos seres humanos são os mesmos que os aprisionam. Falar nisso, vou interromper essas mal traçadas para atender o celular da minha filha.

P.S. – E-mail de Jorge Tasso dizendo que a Ponte da Capunga chama-se Ponte Lacerre, em homenagem ao engenheiro francês que a construiu e não Ponte Morais Rêgo. Sei que é Lacerre, Jorge, mas procurei pessoalmente e não tem placa alguma indicando na ponte. E no catálogo de telefone consta ponte Morais Rêgo.
 

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