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12/01/2010Por que Escrevemos? - Manoel Fernandes Maia
12/01/2010
Publicado na Folha de Pernambuco - 12.01.2010
Por que queremos mostrar nossos escritos, nossas poesias, nossas estórias, nossos contos, enfim, nossa arte de escrever?
Andei fazendo uma reflexão e notei que pode ser por vaidade - embora quem escreva sempre a tenha, devemos sempre controlá-la, pois a vaidade existe, mas deve ser sempre em pequeno grau. Quem não gosta de ser elogiado em sua atividade? Negar é esconder a verdade, isso é cientificamente provado.
O escritor tem necessidade de mostrar a sua obra. Deve aceitar com naturalidade a crítica, pois, ao escrever, está sujeito a isso. A crítica, quando negativa, deve ser observada. Se for perniciosa, deve ser rechaçada. Caso tenha fundo de verdade, seja pertinente, o escritor deve ter humildade e tentar se corrigir.
Não se deve tolher quem escreve. A censura é algo repugnante, inaceitável, é exercida sempre em regimes de exceção. Pode durar décadas, mas será vencida, Imaginemos um mundo onde não existissem escritores. Seria, sem dúvida, uma escuridão em nossa vida, pois a evolução da sociedade não a permite. Quem censura é quem tem poder, e isso, a meu ver, é para se esconder da verdade que lhe incomoda.
Romper a inibição para mostrar o que escreve para muitos escritores, não é fácil. O livro é, para o autor, como se fosse um filho, que deve ser acompanhado em todas as suas fases. Como pai, o autor deve saber como encaminhá-lo. Por certo, encontrará muitas dificuldades. Entre elas, a maior é como divulgá-lo.
Devemos respeitar e incentivar esses novos talentos que surgem a todo o momento, pois, certamente, com a maturidade que tendem a desenvolver, vão trazendo um mundo mais intelectualizado e, muitas vezes, mais alegre. Isso vem acontecendo, é um projeto evolutivo muito rico.
Temos que lembrar que ser escritor é ser uma pessoa privilegiada, pois a arte nasce, muitas vezes, com a gente, que tem como uma obrigação, diria, se aprofundar em estudos de épocas, estilos, constantes leituras dos mais diversos autores, bebendo e analisando a sabedoria.
Escrever e publicar são atos muito sérios, pois estamos levando informações e influenciando seres humanos, com nossas perfeições e imperfeições. Todos que escrevem têm um estilo, se não próprio - o que é difícil -, certamente ligado a uma escola.
Existem preferências por autores por quem escreve e por quem lê. Quem lê é a razão de quem escreve. É mais do que natural termos, assim como pelos alimentos, preferências; aliás, muitos escritos não são só escritos, são alimento para nossa alma.
Essa espécie de cultura, que considero cristalina, limpa, sem poluição, está longe de ser reconhecida e valorizada. As editoras não querem assumir riscos, não investem no novo, a não ser que o autor banque financeiramente tudo; muitas vezes, até a diagramação é cobrada.
Estamos numa época em que a Internet disponibiliza milhares de livros virtuais. Isso é bom por um lado, pois democratiza mais a cultura. Por outro lado, tira o romantismo de ter em mãos um livro, que pode ser dedicado a alguém até como um presente. Por sinal, são os que mais gosto de receber.
Quanto à livraria, que vive de autores, assim como as editoras, só vão atrás oferecendo enormes vantagens a autores que já alcançaram altas vendas de seus livros, os chamados best sellers.
É triste ouvir que livrarias deixam de pagar ao autor que não é famoso e, quando pagam, é com atraso, no dia em que bem lhe convier. Numa livraria aqui no Recife em que estava sendo bem vendido um livro de um autor, uma média de um por dia, estava o escritor em visita ao local, até para ver a posição em que arrumaram seus livros, e foi abordado pelo chefe das vendas, que lhe pediu algum “agrado”, citando alguém que havia lhe dado e cujo livro passou a vender muito mais do que um por dia. O vendedor dirige as compras para quem quer, é a conclusão óbvia. O autor, decepcionado, retirou todos os livros da livraria. Não adiantaria comunicar à gerência nem mesmo ao dono da livraria, pois como iria provar? Isso é o submundo literário, que achamos que não existe.
Finalmente, chego a resposta do “Por que escrevemos?” Será por vaidade, vontade de mostrar sua obra, dividir o dom que lhe foi dado com seus semelhantes, romper sua própria inibição? Não, não é só por isso ou tudo isso; a resposta que chegamos a concluir é que simplesmente amamos o que fazemos.
