Pongando - Arthur Carvalho

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18/11/2009

Pongando - Arthur Carvalho

18/11/2009
Pongando - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 18.11.2009

Pongar era verbo muito usado no meu tempo de criança em Salvador. Vinha a ser subir no bonde em movimento. Despongar, o contrário: descer do bonde em movimento. Os craques nessa modalidade eram os baleiros, vendedores de bala e chocolate em pequenas cestas. Usava-se o termo também para quem copiasse, plagiasse ou se inspirasse no texto de terceiros para escrever conto, artigo, etc.

Pois hoje vou pongar na recente crônica de Joca de Souza Leão, contando a estória do ex-ministro do Exército Walter Pires, que, ao ser examinado em certa clínica (ou hospital?), arretou-se com o enfermeiro ou enfermeira que lhe pediu para levantar a perninha: "General não tem perninha, tem perna".

Em hospital pintam essas coisas. O poeta Thomás Seixas tinha um irmão médico e deputado estadual. Quando meninote, esse seu irmão fez operação de fimose no Português. Depois da cirurgia, recuperava-se no quarto, surge a enfermeira, morena linda, trajando calça comprida branca, justa, realçando o bumbum. Ele, que não podia ver mulher, agitou-se. Ela notou, perguntou se ele estava se sentindo mal, ele negou, estava apenas um pouco nervoso, queria sua mão. Ela deu-lhe a mão, ele segurou "posso beijá-la?" (a mão), podia, ele beijou uma, duas, três vezes, sussurrou: "Tô sentindo um calor danado, deve ser da anestesia". "Talvez seja. Quer que chame o médico?" "Não precisa, vai passar, tá passando..." Foi quando a enfermeira notou a mancha vermelha no lençol. Era sangue. Os pontos da cirurgia tinham rompido.

Chega o médico de plantão, estanca a hemorragia, diz a Luiz Seixas, pai do paciente, que vai trocar a enfermeira por um enfermeiro. E o velho Seixas, sábio macróbio: "Tá certo, doutor, mas eu conheço o meu rapaz. Tem que ser um enfermeiro macho mesmo, senão os pontos vão romper novamente".

Corria o ano de 1970, o grande seresteiro Mário da Silva Gomes extraiu a próstata com o saudoso urologista Saulo Suassuna, assistido pelo cardiologista Henrique Cruz, herdeiro de Domingos Cruz, clínico geral da elite da sociedade recifense.

Ficou combinado pela família de Mário Gomes que cada um de seus cinco filhos se revezariam na companhia do pai, no hospital, no turno da noite. Na terceira noite, Mariozinho, o caçula de Mário, está cochilando na poltrona, pastoreando o pai, entra uma enfermeira boazuda. Mariozinho se arrepiou todo. Duas da madrugada, Conceição (a enfermeira) volta com os remédios de Mário, Mariozinho tranca a porta do apartamento, taca-lhe um beijo na boca, ela estremece: "Para com isso, seu tarado! Olha meu emprego!" Mariozinho não parou, e lá pras tantas, Mário Gomes acorda com um ruído estranho, olha pra poltrona onde Mariozinho e Conceição se enroscavam e dispara: "É, né, sua ingrata! Comigo você não quis nada!" E Mariozinho, no maior cinismo: "Pai, não atrapalha!" E pede a Conceição: "Vê se dá um troço aí pra ele dormir." Se Conceição deu ou não, ninguém sabe, ninguém viu.

P.S. – Dizem que Joseph Conrad é escritor para escritores. Acho que o mesmo pode-se dizer, no bom sentido, de Paulo Fernando Craveiro. Seu novo romance O boneco íntimo, editora Nossa Livraria, é exemplo disso. Paulo Craveiro, como era conhecido quando exercia - com brilhantismo, dignidade e independência - o jornalismo em Pernambuco, demonstra, nesse título, quanto é árduo, nobre e digno o trabalho honesto do verdadeiro escritor. Obra complexa e intrigante, cuja leitura prazerosa eleva e enriquece o intelecto e o espírito. Livro para se ler na rede, tomando chá inglês, e nunca no táxi, ônibus ou aeroporto. Vale conferir. 

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