Política e reducionismo - Fernando Araújo

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17/03/2010

Política e reducionismo - Fernando Araújo

17/03/2010
Política e reducionismo - Fernando Araújo

Publicado no Diario de Pernambuco - 17.03.2010

fernandojparaujo@uol.com.br

O que é a política? Se essa pergunta fosse formulada, hoje, nas ruas, no meio do povo, várias boas respostas seriam dadas, sem precisar citar Aristóteles ou Hobbes. As pessoas sabem que por meio dela é que surge o poder, leis são feitas, estradas são construídas, hospitais e escolas. A nação iraquiana, recém-saída de uma eleição dramática, onde busca recuperar sua história, sua soberania e vencer o fundamentalismo atávico, diria que a política é o caminho legítimo para a democracia. Em 1984, com o povo nas ruas pedindo eleições diretas para presidente, o Brasil vivenciou boas lições sobre os fins dessa atividade, como ação humana. Nesta quadra da vida nacional, contudo, muitos políticos e partidos, no entanto, parecem ter esquecido o seu significado. Tome-se como exemplo as páginas inteiras dos jornais, revistas e da mídia eletrônica dos últimos meses: eles só falam das futricas de pré-candidatos brigando por espaço. Com a proximidade do pleito, poucotempo sobrará para a discussão do que realmente importa, os graves problemas nacionais. Isso é reduzir em demasia o significado e a importância da política, projetando-lhe uma imagem antagônica, a de atividade social menos importante. É um empobrecimento lamentável, pondo a perder importantes características dessa nobre atividade, traduzida por Santo Tomás de Aquino como "Ciência e Arte para o Bem Comum". Esse reducionismo da política tem uma função de deseducar. É grosseira e trai o seu papel fundamental na democracia.

Imagine alguém baixar o som de uma linda melodia, até torná-la inaudível. Ou dizer, como o disse certo cientista, que o amor se confunde com a paixão, reduzindo aquele a mero processo químico no corpo humano (interação entre depomina, niletilamina e oxitocina na corrente sanguínea), que duraria até que o organismo desenvolvesse imunidade às substâncias envolvidas. Ao contrário, nem o amor é só paixão, nem a política é só briga por cargos ou postulações. Todavia, não se está aqui a condenar asdiscussões em torno de nomes, mas a vida partidária e a política não se resumem a isso. Tampouco há aqui uma condenação ao método de redução, posto que a compreensão das coisas, inclusiva da vida política, às vezes precisa de um processo de resumo. O que não é razoável é a simplificação grosseira, exacerbada, radical, com prejuízo de outros aspectos essenciais. De fato, esse tratamento dado por partidos à política não condiz com o que se tolera no método reducista, ou seja, reduzir uma coisa para uma linguagem mais inteligível. Não, a redução tem limites. Deve ela ser lógica, e, no caso, de modo a não deixar confundir a atividade política com meros interesses pessoais. Isso não é reduzir a política a patamares pedagógicos, didáticos para sua melhor assimilação. Mas, na verdade, é uma supersimplificação. Talvez por essa e outras simplificações absurdas da vida política é que deputados federais do porte de um José Eduardo Cardozo (PT/SP) tenha desistido da vida parlamentar. Em carta endereçada à direção do seupartido disse, entre outras coisas, lamentar a redução da política a um verdadeiro negócio, "onde os recursos financeiros cada vez mais decidem o sucesso de uma campanha..." A hora exige, pois, grandeza e respeito ao cidadão eleitor.
 

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