Peguei um Ita no Norte - Arthur Carvalho

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20/05/2009

Peguei um Ita no Norte - Arthur Carvalho

20/05/2009
Peguei um Ita no Norte - Arthur Carvalho
Publicado no Jornal do Commercio - 20.05.2009

Pergunta Joca de Souza Leão em crônica recente, neste JC, se já existia ita nos tempos de Graça Aranha. Existia, Joca. Ita era o nome que designava a classe de navios ou qualquer um dos navios a vapor brasileiros pertencentes à Companhia Nacional de Navegação Costeira, que faziam a cabotagem, transportando cargas e passageiros de Norte a Sul do Brasil, na primeira metade do século 20, e que tinham nomes em Tupi-Guarani iniciados por ita: Itaberá, Itaguaçu, Itaipu, etc.

Havia três tipos básicos de itas: os pequenos, com cerca de 60 metros de comprimento, os médios, com 80 a 90 metros, e os grandes, com 110 a 120 metros, distribuídos em três classes: 1ª, 2ª e 3ª. Os cinco maiores eram o Itahité, o Itaimbé, o Itanagé, o Itapagé e o Itaquicé. Eles partiam de Manaus e vinham escalando quase todos os portos do litoral brasileiro, inclusive Óbidos, Paritins e Santarém, ainda às margens do Rio Amazonas, a nossa Recife, até Porto Alegre.

Minha primeira viagem de navio foi no Itapagé, de Salvador para o Rio, em 1942. Em 26 de setembro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi torpedeado pelo submarino alemão U-161, próximo à costa de Alagoas, morrendo 22 de seus 106 ocupantes. O Itagiba foi afundado em 17 de agosto de 1942, pelo U-507, ao Sul de Salvador, morrendo 26 passageiros e 10 tripulantes. O paquete Itaúba foi posto a pique pelo U-861, a 25 milhas ao Sul do Farol de São Thomé, em 19 de julho de 1944, com 99 vítimas fatais.

Apesar de não existirem mais itas, mistos, o termo perpetuou-se na canção Peguei um ita no Norte, de Caymmi: "Peguei um Ita no Norte/ e vim pro Rio morar/ adeus meu pai, minha mãe/ adeus, Belém do Pará".

O segundo paquete em que viajei foi o Araraquara, do Lloyd Brasileiro, do Rio para a Bahia, torpedeado em 15 de agosto de 1942, a 12 milhas do litoral da Vila do Conde, Sergipe, pelo U-507, submarino que no mesmo dia havia afundado o Baependi. Morreram 66 tripulantes e 65 passageiros.

Criança, eu morava na Ladeira da Barra e me deslumbrava com a chegada dos transatlânticos ao Recôncavo. Um desfile incessante de lindos navios: os ingleses, Almanzorra, Alcântra e Arlanza, o Brasil, o Uruguay, o Argentina e principalmente os italianos Oceania e Netúnia. Mas a grande sensação era o genovês Conte Grande, do Lloyd Sabaudo do Line, com duas chaminés e cor do casco imaculadamente branca contrastando com o verde das colinas da Ilha de Itaparica, ao fundo.

Sua viagem inaugural foi em 29 de junho de 1927, de Nápoles a Nova Iorque. Em 1932, veio para a América do Sul. Em 10 de junho de 1940, com o ataque de Mussolini à França, sua tripulação foi detida no porto de Santos. Em 27 de fevereiro de 1942, foi transferido para a Marinha do Brasil e vendido em 16 de abril do mesmo ano aos Estados Unidos. Em 1947, após o Segundo Conflito, retornou à Società de Navigazione Italiana, e, em 1949, voltou ao serviço neste Continente. Era capaz de transportar 7.798 pessoas, numa velocidade de 20 nós (37 km/h – 23 mph). Foi desmanchado em 1961. Seu irmão, o Conte Biancamano (do italiano Mão-Branca), não tinha sua fama.

Saudades do Conte Grande! Andei em muitos navios mas meu sonho de menino era viajar no Conte Grande. Fazer como aquele figurão desta paróquia, que mandou imprimir no cartão de visitas: "Tabelião, comendador e ex-passageiro do Conte Grande". Pode haver glória maior, Cícero de Morais? Não me sai da memória o garbo com que essa bela embarcação singrava as águas azuis da Baía de Todos os Santos, soprando fumaça cinzenta de seus bueiros. Só você vendo, Joca. Só você pintando, Zé Cláudio. Podes crer, Zé Paulinho. Deus existe!
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