País chamado Sertão - Pedro Nunes Filho

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19/06/2011

País chamado Sertão - Pedro Nunes Filho

19/06/2011
País chamado Sertão - Pedro Nunes Filho
Publicado no Folha de Pernambuco - 19.06.2011

São João dormiu/ São Pedro acordou/ Vamos ser compadres/ que São João mandou!
As festas mais esperadas no meu tempo de criança eram a Noite de São João e a Noite de São Pedro. Fogueiras, milho assada, brincadeiras e fogos, muitos fogos da marca Caramuru. O Sertão de minha infância ainda hoje mora inteirinho dentro de mim. Não é sonho. Ele existe de verdade, longe de tudo, imensidão de reino. Possui corpo e alma. Pensa, fala, canta, chora e ri, igualzinho à gente. Quem decide mergulhar em suas entranhas sofre judiação e nunca haverá de desvendá-lo por completo. Tem seus segredos... Quanto mais o viajante anda, mais léguas aparecem em sua frente. Quanto mais descobre, tanto mais ele se oculta. Depois do fim, Sertão recomeça e nunca termina. - Terra de muitos lugares! - dizem. Magine mesmo o tamanho que é!...  Coisas de Deus que os viventes não alcançam.  
Sertanejo, homem de ação, não recua, nem desiste nunca. Tudo enfrenta como se a vida fosse começar do comecinho mesmo, na virada do dia seguinte. 

Quando se aprende a amar o Sertão, chega dá gosto pisar em cima dele e sentir o chão estremecer debaixo dos pés! Tem mistérios, muitos mistérios por lá...
Vastidão sem fim. Figuro que é do tamanho do mundo ou quem sabe até... Será!? Sei não...
Sol queima, resseca, mata e dá vida também. Sertão é filho da luz. Lá, ninguém vive sem sol. Terras faltas de água, mas é assim mesmo. Se ocorre chover demais, estraga. Povo amarela, cresce barriga, afina as pernas, amolece o corpo e amoita-se. Homem-bode não aguenta excesso de chuva, não. Viventes de lá gostam mesmo é de sol. Luz traz fertilidade, cio, prenhez, bucho e parição. Arbustos de mirrado porte florescem precocemente e sabem resistir às secas quando as chuvas mínguam. Espinhos rasgam a pele e cortam a carne com espantoso prazer. Tempo de chuva cobre de pastos as magrezas da terra. Vento com cheiro de verde beija-lhe a face em época de inverno.

Sertão só pensa em sobreviver, reproduzir-se, multiplicar-se. Sementes medram até sobre pedras, bastando-lhes para fecundar apenas leve frescor do orvalho da noite.
Se você largou o Mundo-Sertão e tem triste amor por ele, não fique aí sobrante e choramingando em recanto de parede, que saudade não mata e às vezes até mata! Siga os riscados do Sertão que eles têm cheiro de terra molhada, mato verde, floração de jurema-preta, fragrância de casca de cumaru. 

Sente-se num dos calcanhares à beira da estrada e, com um graveto, desenhe no chão o mapa de seu caminhar. Em vez de ficar sacolejando o juízo à procura de lembranças e alimentando sofrida ausência do Sertão, pacifique logo sua aflição: leia e releia este artigo que é feito fosse mimo de alecrim, ramo de manjericão, favo de mel de cupira.
Terra de muitos nomes: Sertão do São Francisco, Sertão do Pajeú, Sertão do Araripe, Sertão do Moxotó, Sertão dos Inhamuns, Sertão do Seridó, Sertão do Piancó, Sertão das Espinharas, Sertão do Cariri, Sertão do Araripe, Sertão do Bodocó, Sertão das Águas Belas, Sertão de Quixadá, Sertão do Jaguaribe, Sertão do Canindé. 
Lugar sem lugar. Terra sem fronteiras. País chamado SERTÃO! Minha alma mora por lá. 
E a sua?...
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