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06/04/2011Os sentimentos são universais - Fernando Araújo
06/04/2011
Publicado no Diario de Pernambuco - 06.04.2011
fernandojparaujo@uol.com.br
O que faz as pessoas, às vezes tão distantes no tempo ou mesmo no espaço, agirem de forma igual ou semelhante? Ou expressarem sua arte de maneira idêntica? Várias explicações têm sido dadas, seja no campo religioso, filosófico ou até mesmo científico. Se as explicações convencem ou não, isso é outra coisa. Porém o fato é que o fenômeno continua a acontecer de forma incrível. A resposta mais comum é a de que o homem tem natural vocação universalista.
No terreno da religião, ensinam que a mesma centelha ilumina as mesmas mentes, e em certas ocasiões ao mesmo tempo, percorrendo os espaços com a rapidez do pensamento. E nada lhe opõe obstáculo. Com isso estaria justificada a coincidência dos gestos e da produção das coisas artísticas, por exemplo. Ou seja, trabalhos que são produzidos em locais distantes no espaço ou mesmo no tempo, sem que os diferentes autores tenham conhecimento uns dos outros. Hoje, pelo grande avanço da tecnologia da comunicação, até quese pode duvidar da ausência de acordo prévio ou plágio, mas, e no passado? Shakespeare e o padre Antônio Vieira foram grandes na arte de escrever. Viveram em épocas muito próximas, chegando a ser contemporâneos (1564-1616 e 1608-1697).
Em período mais próximo, Charles Aznavour produzia na França a mais popular das canções - La Bohème. Nela, falava da juventude e início da vida profissional em Montmartre. Tempo difícil, de muita escassez material, mas abundância espiritual. Revisitando o bairro na canção afirma que ele não mais existe. Não quer dizer mais nada. ´Montmartre semble triste`. Enquanto isso, aqui, em ´Poema para a filha`, Edmir Domingues expressa o mesmo sentimento, saudosista, por igual, lembra dos verdes anos, ao dizer: ´Infância que não volta e alimenta toda vida futura que lhe segue.`. E, aconselhando a menina que acabara de nascer, previne-a: ´Não volte nunca, adulta, à terra antiga onde viveu na infância as horas doces/ Que o tempo faz pequeno o que foi grande/Reduz a nada aquilo que foi tudo...`. Os valores válidos para o homem o são urbi ET orbi. Para Platão, o mundo perfeito é o mundo das ideias. É imutável e atemporal. As coisas materiais seriam meros reflexos ou cópias imperfeitas desses arquétipos. A essência das coisas (essas formas) sobreviveria graça à lembrança.
