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07/10/2009Os mistérios da alma - Arthur Carvalho
07/10/2009
Publicado no Jornal do Commercio - 07.09.2009
Em Recordações da casa dos mortos, Dostoievski faz um exame da alma humana, baseado em sua experiência, na Sibéria, estudando o comportamento dos prisioneiros. Três características deles lhe chamavam atenção: a frieza, a falta de consciência e a total ausência de remorso pelos crimes praticados. Um desses detentos matara e degolara o próprio pai, pegando 20 anos de trabalho forçado, mas o romancista sempre o via "magnificamente disposto, sem ser irresponsável, era uma criatura insensata, aluada e indiferente ao passado".
Já Akimitch, outro apenado, "indivíduo terrível, mal-encarado, ruim, desapiedado, atrabiliário, odiado e temido pelo presídio, tinha uma cara avermelhada, turva, de sujeito mau". Quando comandante de um fortim no Cáucaso, mandou fuzilar um príncipe tributário "à guisa de ilustração". Condenado à morte, teve sua punição comutada em categoria 2, mas estava longe de se supor um criminoso. Era respeitado pelos presos, porque os emulava à ordem e tinha "qualidades justiceiras".
– Pois se o principesco ateou fogo no fortim! Eu havia então de, ainda por cima, lhe pedir desculpas?, indagava, revoltado.
Ao cair das tardes de domingo, costumo bater um papinho descontraído com o processualista civil Orlando Correia, na pracinha Luiz Bandeira, na Beira-Rio da Madalena. Sem essa frescura de "papo-cabeça", que, na nossa idade, não gostamos dessas coisas. Orlando, cidadão simples, apesar de culto, um tanto mais taludo do que eu, mantém o vocabulário e o sotaque de matuto do interior da Paraíba, contando histórias do arco da velha, umas pitorescas e saborosas, outras líricas e dramáticas, todas elas narradas com riqueza de detalhes, com autenticidade de exímio causer.
Domingo passado, ele contou dois casos que refletem bem as reações inesperadas do cérebro humano. Um tipo popular de Campina Grande vivia bêbado e feliz, passeando pelo município inteiro, brincando com todos e se autointitulando Manoel das Moças. Um dia, com pena dele, o prefeito o nomeou gari, sob a exigência de ele parar de beber. Manoel cortou o álcool de sua dieta e passou a varrer os becos, ruas e avenidas da Princesa da Borborema. Pouco tempo depois, foi acometido de pertinaz tristeza, definhou e morreu afundado na depressão. Pergunta: se curasse a depressão, ele voltaria a ser o alegre Manoel das Moças, ou o homem está sempre aquém do terceiro uísque, segundo Vinicius de Moraes? Foi a doença que o fez triste ou a troca de seu mundo de fantasia pela crua realidade da vida?
Em Ribeirão, interior de Pernambuco, continua Orlando, morava um cego, cambista de bicho, muito estimado pela população da pequena cidade. Um dia, ele bancou um milhar alto que não podia pagar, o número foi premiado, e antes de o apostador ir receber o dinheiro, o cego se suicidou. Vejam a diferença de caráter desse ceguinho suicida de Ribeirão e do presidiário parricida de Dostoievski. Enquanto o assassino do pai desfilava cinicamente na penitenciária siberiana, causando indignação aos colegas, o cego tinha pejo em continuar vivendo no lugar onde residia desde menino, pela perda da confiança que os moradores depositavam nele. Dizia Paulo Francis que o suicídio é o grande mistério da alma humana. Acho que o grande mistério da alma humana é a própria alma humana.
