Os espinhos da Revolução dos Cravos - Ramos André Recife

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12/05/2011

Os espinhos da Revolução dos Cravos - Ramos André Recife

12/05/2011
Os espinhos da Revolução dos Cravos - Ramos André Recife

Publicado no Diario de Pernambuco - 12.05.2011

No dia vinte e cinco de abril último, completou 37 anos a chamada Revolução dos Cravos, que pôs fim à ditadura salazarista, herdeira da república idealista de 1910. Os republicanos dos “bigodes”, como ficaram conhecidos os substitutos da monarquia, vinham imbuídos dos ideais da Revolução Francesa: separação dos poderes, igualdade e fraternidade e estado laico, postulado dos ideólogos do positivismo francês. Aliás, este foi um dos percalços da primeira república, dada a profunda formação religiosa de povo e os inevitáveis atritos com o clero. A par disso, a instabilidade financeira e política, e a insatisfação popular, aplaudiram o levante militar que em maio de 1926, pôs fim ao republicanismo de 1910. 

 Salazar, professor de Finanças da Universidade de Coimbra, foi chamado em 1929 pelos próceres do movimente vitorioso, que não conseguiam superar a crise financeira herdada. O governo tentou empréstimos estrangeiros, mas a “protetora” Inglaterra e a Sociedade das Nações retraiam-se ou impunham condições ofensivas à independência. Ao assumir a tarefa, Salazar anunciou: “sei muito bem o que quero e para onde vou”. Estabilizou o orçamento, valorizou o escudo e impôs regras duras nos gastos públicos. “Economizar e poupar como manda Salazar”, dizia o povo. Em 1933 submeteu a plebiscito a aprovação de uma nova Carta Magna, a constituição do Estado Novo. Foram anos de calma, de ordem e de prisões para os que discordavam. A aparente modernização inicial deu lugar a uma economia fechada, ao isolamento, ao precário desenvolvimento e à pobreza, origem da emigração em massa. Contrário à independência das colônias, provocou a guerra a que os portugueses não estavam dispostos. Nela iam-se consumindo a juventude e as finanças, até que os “Capitães de África” fizeram a Revolução dos Cravos, no dia 25 de abril de 1974, derrubando a ditadura de 40 anos.

O 25 de abril, ou Revolução dos Capitães, ficou mais conhecida como Revolução dos Cravos. Parece que todos tinham lido O Menino do Dedo Verde. Revolução romântica. Não houve derramamento de sangue nem prisões significativas. Muita ordem, festa popular, alegria, independência às colônias, e autorização dos depostos para deixarem o país. Instalou-se uma autêntica República Democrática. Nos acertos iniciais houve lutas partidárias. Com a entrada na União Europeia, a grande modernização e o progresso chegaram. Portugal galgou o lugar de primeiro mundo. Sem desemprego, boa qualidade de vida e oportunidades para todos, oásis para imigrantes. Mas, vítima de concorrências selvagens, excessos de liberdades e descrédito político, começa a mergulhar novamente na crise financeira e na desordem social. Dos cravos estão restando os espinhos. De chapéu na mão, vai bater à porta do FMI. A CEE não tem para emprestar. No dia 5 de junho os portugueses vão eleger outro congresso, face à renúncia do Primeiro Ministro, impotente para pagar a dívida nacional. Mas os espinhos podem voltar…

 

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