Oradour-sur-Glane - Hélio Coutinho Filho

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01/08/2009

Oradour-sur-Glane - Hélio Coutinho Filho

01/08/2009
Oradour-sur-Glane - Hélio Coutinho Filho

Publicado no Diario de Pernambuco - 01.08.2009

helioc@terra.com.br

Um dos objetivos deste artigo é relembrar a mim mesmo e a tantos outros pouco atentos, e também aos esquecidos por conveniência, ou os que assim são por absoluta falta de caráter e ainda aqueles que têm as consciências em permanente desalinho, a enormidade da tragédia que foi para a humanidade a barbárie nazista. Relembro, e o faço com um toque de emoção, a frase gravada para a eternidade, no granito de um museu em Paris: "entra Jean Moulin e seu longo cortejo de mortos...". Vítimas todas da mesma barbárie.

O dia 10 de junho de 1944 amanhecera e nada muito significativo se prenunciava, a não ser uma natural excitação que envolvia os habitantes da pequena vila de Oradour-sur-Glane, situada na região de Limousin, no departamento de Haute-Vienne, desde a alvorada do dia 6 de junho - Dia D, quando as praias da Normandia foram tomadas de assalto pelo desembarque dos aliados.

Tropas alemãs acantonadas na França eram deslocadas para a Normandia para combater os aliados. Marchando para a costa a 2ª Divisão SS Das Reich, das Waffen-SS, a elite dos combatentes nazistas, era aqui e acolá, fustigada por ações e sabotagens dos maquis. O Sturmbannführer Adolf Diekmann, comandante de um batalhão da 2ª Divisão, fora avisado por dois civis franceses da região, da prisão de um oficial SS por partisans e que o mesmo seria executado e queimado em praça pública.

Na tarde do dia 10 de junho, Oradour foi cercada e fechadas todas as suas saídas. A população foi levada para a praça principal. As mulheres e as crianças foram trancadas na igreja da pequena vila. Os homens foram trancados em celeiros e garagens onde foram mortos por rajadas de metralhadoras montadas em tripés e depois queimados. Apenas 5 dos 195 homens de Oradour escaparam. Ninguém sabe como puderam fazê-lo. Na igreja as mulheres e as crianças em desespero com o ruído dos tiros aguardavam aterrorizadas. Tochas foram lançadas pelas janelas e um grande incêndio carbonizou 452 mulheres e crianças. Os que tentaram a fuga pelas janelas eram impiedosamente metralhados por soldados posicionados na praça. A tragédia atingira seu ponto máximo. Após a consumação, a pequena vila foi queimada. O crime revoltante foi de tal ordem que gerou protestos nas próprias forças alemãs, inclusive do marechal Erwin Rommel.

Após a guerra, De Gaulle optou por não reconstruir a cidade, permanecendo as suas ruínas calcinadas como uma testemunha tão silenciosa quanto eloquente da barbárie nazista. O presidente Chirac mandou construir um centro da memória em Oradour e decretou-a como "cidade-mártir". Na Tchecoslováquia há também uma cidade-irmã de Oradour e seu nome é Lídice.

A BBC fez um documentário O Mundo em Guerra em 1974. E a voz de Laurence Olivier, grave e cheia de emoção, abre o filme com imagens de helicóptero sobrevoando a cidade vazia e silenciosa, dizendo: "Por esta estrada, num dia de verão de 1944, os soldados vieram. Ninguém vive aqui agora. Eles aqui ficaram por algumas horas. Quando eles se foram, a comunidade que existia há mil anos,havia morrido. Esta é Oradour-sur-Glane.

PS: Agradecimentos a Sérgio de Carvalho Lisboa, atento estudioso dos assuntos da II Grande Guerra.
 

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