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27/01/2010Onde viver? - Arthur Carvalho
27/01/2010
Publicado no Jornal do Commercio - 27.01.2010
Vou abrir meu coração. No ano passado, disse a uma querida amiga, artista plástica pernambucana, radicada em Zurique há 18 anos, que a Suíça já lhe deu régua e compasso e que ela devia voltar à sua terra, para se enriquecer culturalmente com nossas inesgotáveis fontes inspiradoras latentes nos dramas, paisagens e costumes do nosso povo, da classe média e até da elite. E acrescentei ao "conselho" uma frase que a abalou: "A Suíça é um país decadente". Ela não absorveu ou não compreendeu bem o que eu disse e nunca me perdoou.
Agora, um ano depois, abro o capítulo 18 do excelente livro Clarice, de Benjamin Moser, tradução de José Geraldo Couto, pela Cosac Naify, e encontro o seguinte: "Cemitério de sensações. Mais até do que Veneza, a Suíça, o novo lar de Clarice, era o lugar supremo da morte artística, ali Thomas Mann e Nabocov foram para morrer, ali Nietzsche e Nijinski ficaram loucos. As cidades de brinquedo, os relógios cuco, os chocolates e a neutralidade não poderiam oferecer um contraste maior com o caos, a juventude e a energia do Rio de Janeiro. A Suíça era um pouco menos do que Clarice podia suportar: ‘Esta Suíça’, ela disse a Tânia, ‘é um cemitério de sensações’." (...) "Wainer sentenciou que em Berna é diariamente domingo", ela escreveu a suas irmãs. E acrescentou que não suportaria Berna se nós não estivéssemos aqui. Ele achou caretíssima a cidade e sem caráter..." "O jeito é olhar Berna da janela e fechar a boca com força", escreveu Fernando Sabino a seus amigos. "Berna é linda e calma, vida cara e gente feia, com falta de carne, com o peixe, queijo, leite, gente neutra, termino mesmo dando um grito, falta demônio na cidade." Para Elisa e Tânia, ela desabafou: "Berna é de um silêncio terrível: as pessoas também são silenciosas e riem pouco. Eu é que tenho tido acessos de riso. O povo suíço nada recebeu gratuitamente. Tudo nessa terra tem marca de nobre esforço, de conquista paciente. E não foi pouco o que eles conseguiram – tornar-se um símbolo de paz, o que não impede que tanta gente, em silêncio, se jogue da ponte de Kirchenfeld".
Bruna Wainer, mulher de Samuel Wainer, escreveu para o Brasil, sobre a capital da Suíça: "Tudo aqui é quieto e limpo. Qualquer coincidência com o cemitério é pura semelhança".
Isso tudo faz certo tempo, mas a Suíça continua a mesma. Morar no Brasil, então? Como conviver com tanta violência, desigualdade social, corrupção, impunidade, miséria? Noite de ano, enquanto eu apreciava, de nossa varanda, o trânsito intenso dos automóveis na Avenida Beira-Rio, e os poucos fogos do Marco Zero, um senhor, indiferente aos carros de luxo que estacionavam na frente do nosso edifício e deles desciam casais elegantes, trajando branco, perfumados, com garrafas de champagne e uísque escocês, catava comida na lata de lixo.
Na África, as guerras tribais não têm fim, e grupo separatista angolano metralhou o ônibus que transportava o selecionado de futebol de Togo. No Oriente Médio, no Paquistão, na Coreia do Norte, na Venezuela, no Haiti, na própria Argentina, as coisas não vão bem. Onde viver? Onde morar? Esse foi o mundo que o homem nos legou? E nos Estados Unidos? perguntará o leitor. Nos EUA não dá: o café é horrível... E, como diria Ary Barroso, lá não tem o Clube de Regatas do Flamengo, correndo-se o risco de topar, de repente, com Bush, numa esquina de Washington.
Pena que minha querida amiga não tenha compreendido o que eu quis dizer. E isso me custou caro. Muito caro.
