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03/08/2009Obrigado, doutor - Alexandre Gois de Victor
03/08/2009
Publicado no Diario de Pernambuco - 03.08.2009
agois@siqueiracastro.com.br
Dr. Adriano Calado (Dido para alguns) acorda cedo. Muito cedo. Destino? O hospital, o consultório ou a academia de medicina, onde se dedica à função da docência. Acordaria cedo mesmo se por acaso não houvesse se formado médico. Resultado do costume de sua família - educada - egressa da porta de entrada do agreste meridional pernambucano. É jovem, de hábitos simples, discretos e comedidos, exceto no desempenho de seus estudos, ocasião em que, realmente, o comedimento não se faz presente. É casado com Adriana (Dida para alguns) com quem tem um filho, lindo, de nome Henrique. É comum ver Dr. Adriano usando camisa de listras verticais e mangas compridas, dobradas na altura do antebraço. Calça sapatos quarenta e um. Costuma sair para relaxar, com a mulher e alguns amigos, nos dias de quinta-feira, já que na sexta é dia de folga da babá, e nos fins de semana é improvável que não tenha que fazer uma peregrinação hospitalar em visita aos seus pacientes. Noutras ocasiões, num sábado ou domingo, almoça em casa dos sogros ou dos pais. Por vezes, em meio a estes almoços de fim de semana diz à mulher que vai dar um pulo em casa para uma estudada. No caminho melhor amolda seus planos e faz uma escala no parque da Jaqueira, onde completa, para nossa humilhação, longas oito voltas.
Quando pode, gosta de ir a Gravatá onde, não raro, faz expedições imaginárias com seu (nosso) Henrique. As plantas do parquinho funcionam como se fossem a entrada de grandes florestas, e o encontro com uma lagartixa pode servir de mote para falarem sobre os dinossauros. Dr. Adriano é, portanto, aparentemente, pessoa comum. Aparentemente. Na verdade, é daqueles a quem vão chamar de medalhão quando os cabelos brancos lhes cobrirem a fronte. Sim, por que a gente adora um cabelo branco, não é? De preferência rarefeitos em cima e com entradas de calvície pelas laterais. Cremos, todos, numa espécie de Sanção moderno (refiro-me ao guerreiro Hebreu) às avessas, a quem o embranquecimento dos cabelos equivaleria ao resultado dos longos anos de experiência exitosa na profissão. Esse seria (os cabelos brancos) o sinal indicativo de possível aumento de nossas chances de sucesso no desenlace de nossos problemas. Cabelos negros e brilhosos, feito asa de graúna, seriam, então, perigosíssimos. Um verdadeiro atentado à moral, à ética e aos bons costumes. Mas como o Dr. Adriano já traz consigo pequena parte de suas madeixas com matizes grisalhas nas laterais inferiores há que se nele já confiar. Uma vez me disse que, comumente, a medicina não é fonte de fortuna financeira, mas é, sobretudo, caminho para outra forma de realização. E ele persegue, com desenfreio, esse último objetivo. É que Dr. Adriano é dos que ainda se realizam em poder funcionar como instrumento da real transformação da vida dos outros, seus pacientes. É dos que se encharcam de alegria ao ver a mudança dos semblantes, antes incrédulos, para os olhares esperançosos.
Penso que talvez seja dos que engrossam o cordão dos verdadeiramente afortunados. Dos que conjugam em suas vidas a máxima do exercício do bem pelo bem. Em tempos de relações contábeis, onde as pessoas se debitam para, adiante, creditarem-se, Dr. Adriano, antes de tudo e mais nada, parece buscar um júbilo. Não para si mesmo. Não o seu. Mas o do outro, a quem serviu de esteio, de via, de vereda para a cura. É o contentamento com o contentamento alheio. Essa é, no fundo, a verdadeira razão de sua renúncia. Por isso é dos que literalmente se entregam. É dos que se despem. É dos que não se omitem. É dos faz de seu ofício um sacerdócio, quase uma batina. É dos que ainda choram. É dos que são gente. Obrigado, Doutor.
