O Siri na Lata - João Bosco Tenório Galvão

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18/01/2010

O Siri na Lata - João Bosco Tenório Galvão

18/01/2010
O Siri na Lata - João Bosco Tenório Galvão

Publicado no Diario de Pernambuco - 18.01.2010

jbtg@uol.com.br

Dia 5 próximo será o 31º baile do Siri na Lata. Mais uma perda no meu currículo anárquico-armorial, pois estarei fora do baile e das ladeiras de Olinda. Aliás, minha amiga Silvia Pontual, em nosso último encontro, atestou minha retirada da vida boêmia e afins, o que não impede de me alegrar com as alegrias alheias. Sinto-me fundador do Siri na Lata, juntamente com Ivan Mauricio, Lenita Tabosa, Marcus Cunha, Roberto Freire, Byron Sarinho, Maria Áurea, Marcos Freire e tantos outros, embora não nos fizéssemos presentes na famosa reunião de criação do irreverente Bloco. Nossa presença foi determinada pelos anseios de ridicularizar os poderosos do dia, seja o dia que for. O Siri nasceu assim, alegria e sátira. O que não se podia extravasar no quotidiano seria feito no domingo de carnaval. Em fama o Siri rivalizava com a Banda de Ipanema, sendo o Siri sobrevivente, pois desperta paixões mundiais até hoje. No Baile do Siri encontraremos brancos, negros, arianos, gente oriunda do mundo inteiro, este ano até uns parentes de Bin Laden, segundo Ricardo Carvalho, virão. Que ninguém estranhe as sátiras, pois com o Siri ninguém pode. O Siri satirizou a ditadura, a abertura, os políticos e os militares, havendo poder o Siri era contra, ou melhor, a favor do contra. Notem que o poder do Siri vem da ausência de sede, diretoria, sócios contribuintes e correlatos. O Siri é antes de tudo um fato espontâneo, informal. Nos desfiles de domingos de carnaval vi muitas coisas. O bloco saía do Bar Atlântico, em Olinda, com ou sem orquestra. Os bailes anuais variavam dos salões ao meio das ruas. As sátiras sempre dirigidas aos poderosos e desonestos. Não pensem que os admiradores eram sempre de esquerda, pois já tivemos vice-ministro militar, em pleno regime de força, desfilando conosco. Nas ruas os sirianos eram democráticos, bebiam uísque e cachaça, cerveja e champanhe. As contribuições pecuniárias sempre ocorriam minutos antes do desfile, pois sem cotização não haveria verba para remunerar os músicos, daí incontáveis desfiles sem orquestras. Tenho a impressão que no carnaval de 1980 o Siri desfilou com mais de 30.000 pessoas. Era um mar subindo e descendo as ladeiras de Olinda, com uma beleza rara, sem lenço e sem documento. Nessas ocasiões, bailes e desfiles, até a sisudez de nosso Senador Jarbas Vasconcelos desaparece dando lugar a uma face risonha. Bons tempos os do surgimento do Siri. Estavam empalhando nosso carnaval, fixando limites pelos palanques e passarelas oficiais, numa clonagem do carnaval carioca. O Siri representou a grande reação do informalismo contra a padronização das picaretagens que existiam na administração dos carnavais. A beleza do Hino do Siri, composto por Carlos Fernando o grande compositor que Caruaru deu ao mundo, consolidou para sempre a vida do Siri que não é de ouro nem é de prata, mas vale um milhão (só?) a sua pata...

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