O poeta Gari - Arthur Carvalho

Notícias

24/06/2009

O poeta Gari - Arthur Carvalho

24/06/2009
O poeta Gari - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 24.06.2009

O velho bairro da Capunga fervilhava nos anos de 1950 a 1964. Moravam na Rua das Graças o vate Thomás Seixas, em seu casarão de acácias amarelas, rosas brancas e vermelhas, sapotizeiros e pés de cupuaçu, o boêmio Waldemar Machado, filho do português seu Machado, dono do Armazém Avenida, estabelecido no Bairro do Recife, os arquitetos Zildo e Zenildo Sena Caldas, as irmãs Fany e Poly Seixas, Deolindo Moura, Gabriel Neves, Nando e Lula Dubeux, Rilton Rodrigues da Silva e seu Manta. Na Rua das Pernambucanas, os irmãos Jonas, Jefferson, Jansen, Jakson e Toinho Ferreira Lima, Nelson Caldas, o sociólogo Vamireh Chacon, Jorge Romangueira, o historiador José Antônio Gonsalves de Mello e, depois, na mesma casa, o cronista Renato Carneiro Campos e sua Pompéia.

Limpamos um terreno da esquina das Pernambucanas com a Jacobina, onde morava o professor Romero Marques, iluminamos com refletores e organizamos um campeonato de times do bairro, nos quais brilhavam, entre outros craques, Eloy D’Almeida Lins, Rinaldo Mota, o Nadinho, João Pitada, Renato Boca da Noite, Deba e Costeleta. As partidas ocorriam aos sábados e domingos à tarde e nas quartas-feiras à noite. Depois dos jogos noturnos, uma cervejinha gelada na Churrascaria Palhoça do Melo, comandada por Jorge Tasso, despesas pagas por Paulo Martins, um mão aberta, sob a assistência de Antônio da Fonte, competente e dedicado médico do selecionado das Graças. Nas sextas-feiras à noite, seresta que se revezava nas casas do pessoal do nosso grupo, sob a batuta do saudoso Geraldo Mendonça e seu pandeiro, acompanhando Mario da Silva Gomes e Marcelo Marques.

Certo dia, um rapaz tímido e de rosto cheio de espinhas bate na casa de Jonas, para mostrar suas poesias. Jonas, advogado de cultura literária, texto ágil, rebuscado, colorido e vibrante, avesso a igrejinhas e academias literárias, leu as poesias do moço e disse: “Vou levá-lo a um amigo” – e o levou a seu vizinho, Renato Carneiro Campos.

Renato recebeu o jovem beletrista em sua mansão, cor de vinho e arborizada, de hobe de chambre, fumando cachimbo, deixando-o atônito e inibido. Renato leu os poemas em absoluto silêncio e marcou encontro com ele, para a tarde seguinte, no Bar Savoy, então reduto da inteligência da cidade. E avisou a Carlos Pena Filho, Carlos Moreira, Mauro Mota e Ascenso Ferreira que iria apresentá-los a um poeta arretado. No dia e hora marcados baixou na mesa desses monstros sagrados uma revelação chamada Garibaldi Otávio. Quem dos atuais intelectuais recifenses ouviu falar no poeta Garibaldi Otávio?

Depois do primeiro encontro com Renato, Garibaldi integrou-se à nossa patota, à patota dos boêmios da Capunga, e passou a ser chamado carinhosamente de "o poeta Gari". O Golpe de 1964 dispersou a turma de pensantes da Capunga e Gari foi bater em São Paulo, fugindo das perseguições políticas.

Recentemente, estou no escritório, recebo a visita inesperada, prazerosa e ilustre de Garibaldi, a tiracolo o original de seu livro O Girassol, com 78 poemas, a ser lançado, este ano, pela Cepe, prefácio de Aloízio Magalhães, orelhas da escritora Vanja Carneiro Campos e capa da pintora Tereza Costa Rêgo. Quem achar que estou brincando ou exagerando quanto à qualidade da poesia desse meu dileto, de luares e serenatas da Capunga, transcrevo o poema Banguê, um dos constantes do livro: “Claro canário canta o amarelo/ dos cajás. O canto ácido (o trino de ágata) corta a tarde e martiriza as/ cajazeiras com seus frutos de tempo./ O tempo corrompido. E a ferrugem/ nos dentes das moendas lança um grito./ As moendas revivem e seus dentes/ mordem (cana sobrevivente) a terra./ O tempo corrompendo. E as lembranças/ reacesas nas fornalhas e revivas/ ruínas. Melões-de-são-caetano sobem/ a vertical tristeza dos boeiros./ O tempo corrompido e corrompendo./ O tempo antitempo renascendo.”

É mole?


Voltar