O galo-de-campina - Arthur Carvalho

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25/05/2011

O galo-de-campina - Arthur Carvalho

25/05/2011
O galo-de-campina - Arthur Carvalho
Publicado no Jornal do Commercio - 25.05.2011

Estou no escritório, adentra portador com um embrulho em papel madeira. Gosto muito de pacote grande porque sugere presente grande. Abro a encomenda sofregamente (gostou do sofregamente, Zé Cláudio? - estou descontando o "gáudio" do seu bilhete).

Surpresa: o embrulho continha tela de Zé Cláudio, um belo galo-de-campina cantando num canteiro de pétalas de xanã. Régio presente, que, no primeiro momento, me deu problema. Onde colocar a tela? Na parede da sala de espera do escritório? Sim, porque, além de enfeitá-la, eu queria que meus clientes soubessem que tenho um quadro de Zé Cláudio. Mas, logo, a dúvida cruel: e se a furtarem? Não estou acusando ninguém, mas hoje em dia... Vou afixá-la no meu quarto, junto de uma paisagem de Olinda, vista do Alto da Sé de André Nóbrega. Mas seria egoísmo de minha parte, porque impediria as visitas (poucas) de apreciarem o passarinho. A solução foi colocar o quadro na minha sala de trabalho, de frente para a porta da entrada, podendo as pessoas curtirem o pássaro, e ao lado da estante, que apelidei de "galeria do amor", onde estão os porta-retratos de meus filhos, netos e alguns ingratos ex-amores, que ninguém é de ferro. Quando vier pro cafezinho, Zé, você confere.

Impressiona em Zé Cláudio ele ter conseguido pintar de maneira tão simples, sem resvalar para o piegas e o vulgar. Ouso dizer que Zé Cláudio representa para a pintura o que Rubem Braga representou para a crônica, transmitindo mensagem ao mesmo tempo fulgurante, digna e enxuta, de rara e intensa luminosidade, sem traços supérfluos, concessões suspeitas a escolas ou modismos do mercado, ao mau gosto grã-fino, o brega da classe média, os ares rarefeitos da alta burguesia, a cafonice do novo rico, os apartamentos chinfrins.

Ninguém se engane: ele não nasceu pintando tão bem assim, Jesus Cristo muito o ajudou, dando-lhe talento, mas sua convivência com notáveis artistas plásticos brasileiros, feito Mirabeau, Caribé, Pancetti, Mário Cravo e Di Cavalcanti, entre outros, e seu árduo aprendizado em Roma, os meses singrando rios e igarapés da Amazônia, desbravando a imensa floresta com Paulo Vanzolini, contribuíram decisivamente para o amadurecimento de sua obra.

Ele atingiu, assim, a difícil simbiose de se tornar pintor de telas aparentemente singelas mas de incomparável força telúrica e deslumbrante colorido (é quem melhor emprega o vermelho e verde no Brasil), impregnado de cintilantes nuances da fauna e flora tropicais, com ressaibos de baianidade, que só ele sabe fazer.

O bico aberto do galo-de-campina que decora nosso escritório não transmite sofrimento ou amargura, naturais numa criatura nordestina. Ao contrário: o bom passarinheiro é capaz de "ouvi-lo" dando o açoite clássico e compassado: "Padre, Filho, Espírito Santo".

Saravá, Zé Cláudio! Que Oxóssi o proteja e guarde em seu santuário, na encosta da Colina da Igreja do Monte.
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