O encontro das coincidências - Alexandre Gois de Victor

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07/12/2009

O encontro das coincidências - Alexandre Gois de Victor

07/12/2009
O encontro das coincidências - Alexandre Gois de Victor

Publicado no Diario de Pernambuco - 07.12.2009

alexandre.gois@urbanovitalino.com.br

Há sujeitos que são realmente predestinados. Quer-se dizer: são destinados previamente a algo ou a alguma coisa. Não, estimado leitor, não pense que me refiro aos que nascem para ocupar a presidência da República. Falo da outra face da moeda. Da outra margem do rio. Falo dos que são destinados a coisa nenhuma. É sobre esse algo ou alguma coisa que fiz menção. Justamente o algo ou alguma coisa que na verdade reflete um punhado de nada. Sim. Certas pessoas são destinadas antecipadamente a um nada do tamanho de um Estádio de Futebol. Não adianta. Podem planejar anos a fio as suas vidas, as suas sortes, os seus desejos, os seus amores, a concretização de suas aspirações, os seus objetivos ou o que querem para o seu futuro, que nada acontecerá. Podem ter nascido em classe abastada da sociedade, terem frequentado os melhores colégios, realizado intercâmbio cultural, feito uma década de Aliança Francesa, mestrado, doutorado que... Nada.

Há camaradas que têm vocação para o insosso. Nascem, vivem e morrem numa zona ou camada cinzenta de acontecimentos. É um eterno coadjuvante das coisas que lhe acontecem ao redor. O camarada nem é carne, nem é peixe. E olhe que isso também não é falta de esforço. Para esses sujeitos, o esforço equivale a um manifesto exercício de inutilidade. E aí vai um recado para os que receberam da vida o dom da urucubaca: não se esforce que não adianta, meu filho... Faça como fez a coisa nesse Campeonato Brasileiro: entregue logo os pontos.... Enfim. O fato é que um cara assim pode ter sido planejado desde cedo para ser um vencedor, mas, acabará, no máximo, dando um "volte sempre, senhor!" numa loja de miudezas num bairro distante de periferia. De nada terá adiantado que seus pais tenham esperado na grande noite de sua concepção o alinhamento de um dos anéis de saturno com a passagem septuagenária de um cometa, para que o cosmos conspirasse positivamente em seu favor. Esse sujeito não achará o amor de sua vida, justamente porque, tendo em conta uma diferença de dois minutos, não conseguiu pegar uma carona no carro lotado de um colega de faculdade.

O mesmo carro onde estava a lindeza da Renatinha. Menina cheia de vida e energia que ingressou no curso por que ganhara uma bolsa de estudos em razão de ter ido acompanhar um primo numa entrevista com o novo Reitor num sábado pela manhã marcado por um tempo nublado que lhe frustrara a ida à praia. Também não terá alegria no trabalho. Passará a sua existência pensando como poderiam ter sido as coisas se não tivesse perdido três dedos da mão direita numa visita universitária a uma fábrica de autopeças, ocasião em que lhe fizeram a demonstração de uma nova máquina vindo da Alemanha. Não lhe servirá de consolo o fato de que em cento e oitenta e três anos de existência, o fabricante nunca registrara um acidente sequer, em qualquer de seus equipamentos espalhados pelo mundo. Terá sido o motivo pelo qual que teve de desistir do sonho de se tornar pianista profissional. Para esses camaradas falta na vida a simples obra do acaso. Aquilo que não se planeja e que se atravessa, sem convite, no caminho das pessoas da maneira mais inesperada. Uma ou duas coincidências. Nada mais. É só o que basta. A vida do sujeito só dá certo, realmente, quando as coincidências se encontram, apertam as mãos e saem para tomar um café.
 

 

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