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29/12/2010O dia do marinheiro - Arthur Carvalho
29/12/2010
Publicado no Jornal do Commercio - 29.12.2010
Permitam-me confessar que sou oficial de Marinha frustrado, oficial da Marinha Mercante frustrado, marinheiro frustrado. A minha patente, portanto, na Marinha, nunca passou de marinheiro de água doce. Isso porque sou homem nascido e criado nas praias, em uma Salvador cercada de mar por quase todos os lados. Por pouco não nascia na Ilha de Itaparica, plantada no Recôncavo Baiano, onde, na ocasião, minha mãe Amália Maria passava temporada por recomendação médica. Meu pai, também baiano, engenheiro civil Carlos Koch de Carvalho, foi presidente da Companhia Bahiana de Navegação, cuja frota de pequenos navios fabricados na Holanda singrava as águas azuis e comumente plácidas da Baía de Todos os Santos, escalando em Amoreira e Itaparica, subindo o Rio Paraguaçu, servindo às cidades ribeirinhas de Maragogipe, São Félix, Cachoeira, terra do civilista Teixeira de Freitas, vizinha de Curralinho, chão do poeta abolicionista Castro Alves. A Companhia Bahiana de Navegação contava também com o João das Botas, destroier transformado em veloz paquete, que descia pelo litoral sul da Bahia, em cabotagem, até Ilhéus.
Morei, durante minha infância, na Ladeira da Barra, de onde apreciava, deslumbrado, a entrada e saída incessantes de belos transatlânticos: o lendário Conte Grande, irmão gêmeo do Conte Biancamano, o Oceania e o Netúnia, todos italianos, o Almanzorra e o Alcântara, da Mala Real Inglesa, o Uruguay, Brasil e Argentina, que faziam a rota Europa-Buenos Aires, os Itas, os Aras e os navios do Lloyd Brasileiro e Lloyd Nacional.
Ao apagar das luzes da Segunda Guerra Mundial, assistia, maravilhado, aos caça-minas americanos, brasileiros e britânicos, serpenteando, com agilidade, por entre os cargueiros de comboios aliados que iam abastecer em Salvador para atravessarem o Atlântico com destino ao continente africano. Vi até o famoso Queen Mary, de 80 mil toneladas, conduzindo soldados escoceses, irlandeses e australianos para as frentes de batalha na Europa. No quebra-mar, o encouraçado Minas Gerais, protegido por uma rede de aço, guarnecia Salvador.
Estudante de direito, saía de saveiro com os pescadores do Porto da Barra (onde parte da esquadra de D. João VI pisou solo brasileiro pela primeira vez), para pescar em Amaralina e Itapuã. E quando vim morar em Olinda, costumava pescar, de jangada, ao largo do Janga, Pau Amarelo e Conceição. O mar – principalmente suas cores de um azul subitamente verde, como dizia Jorge Amado e pintava o marujo Pancetti em seus quadros sempre com motivos marinhos – e o silêncio profundo que nos enlevam e acalmam quando estamos pescando “lá dentro” me fascinam. E se ainda não tive o prazer de passear nos luxuosos e modernos transatlânticos que percorrem o mundo em todas as direções, posso fazer “inveja”, no bom sentido, aos leitores, dizendo que viajei nos paquetes Itapagé e Araraquara, na primeira metade da década de 40, pouco antes de seus covardes torpedeamentos por submarinos alemães, no belo transatlântico português Vera Cruz, irmão do Santa Maria, no Rosa da Fonseca, no Ana Nery, no Pacífic e no D. Pedro II, do qual desembarquei, para aqui morar e me tornar cidadão honorário de Olinda, Recife e Pernambuco com muita honra.
O escritor polonês Joseph Conrad, autor do clássico Lord Jim, comandante de veleiros que navegavam pelas ilhas dos Mares do Sul, no final do século 19, recebeu, certa vez, o romancista francês Albert Camus em sua casa de Londres. Jessie, sua esposa, percebendo, encabulada, que Conrad elogiava a toda hora na conversa com Camus, o Libertad, que ele comandara durante anos, cuja miniatura decorava sua mesa de trabalho, o repreendeu: “Mas Joseph, o Libertad não era tão grande assim”. Ao que Conrad, fitando o horizonte longínquo, respondeu: “Não é o Libertad, não, Jessie, é o mar!”
PS – Os campeões do juvenil do Sport de 55, de luto, com o falecimento de seu meia-esquerda Elcyr, o popular Gogó de Sola.
