O destino dos barcos - Eduardo Carvalho

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14/12/2009

O destino dos barcos - Eduardo Carvalho

14/12/2009
O destino dos barcos - Eduardo Carvalho

Publicado no Diario de Pernambuco - 14.12.2009

arthur_carvalho7@hotmail.com

Por razões e motivos diversos, vez por outra passava uns dias em casa dos meus avós Sônia e Romero, Rua Jacobina, 58, Graças, de frente para o sítio do Prof. José Paulo Cavalcanti, que chegava à beira do Capibaribe. Pela manhã, atravessava a rua, batia no portão, botava armadilhas com sapoti e jenipapo para pegar guaiamuns, e enquanto eles não vinham, jogava uma pelada driblando mangueiras enormes, ficava derrubando jambo do Pará, quando era época. Se chovesse, pegava na mão de Romerão para passear pelos corredores do Hospital Português ou do Pedro II.

O silêncio das tardes nas Graças era quebrado pelo berro do verdureiro, preto azulado que empurrava uma carroça com frutas e verduras frescas, ou pela agonia rouca da lavadeira Antônia, quando chegava descalça e triscada, da beira da maré, e eu ficava na nossa varanda ouvindo minha avó repetir: "Vá prá casa, Antônia. Hoje não tem roupa, não. Vá prá casa".

À noite, eu abria o portão de ferro para o carro do meu avô entrar. "Como foi o dia, seu Duda?", e íamos jantar.

Eu adorava as Graças, mas gostava mesmo de voltar para Olinda, onde morava. Ficava encantado quando o Varadouro vinha chegando, crescendo na frente do automóvel. O Varadouro é o primeiro abraço que se recebe em Olinda. É sinônimo de lar, para mim, até hoje. Do Varadouro eu sei chegar em casa.

Vocês já viram o Varadouro, de Olinda. É um largo que se abre de repente por conta do braço da maré, e se revela um porto, e se vê um destino; as torres de São Bento surgem no alto entre palmeiras imperiais, impondo respeito, emprestando imponência ao lugar, trazendo os tempos de capital.

Ninguém precisa passar da ponte do Varadouro, prá lá.

Tenho ido cada vez menos à minha cidade, onde cresci e fiz amigos, aprendi a pescar, namorar e andar de bicicleta. Não necessariamente nesta ordem.

Fiquei sabendo há pouco, que se pretende fazer do Alto da Sé um grande shopping a céu aberto. Espero não ser verdade. O Recife Antigo e o Pelourinho, para ficarmospor aqui, desautorizam experiências desse tipo, por mais bem intencionadas que sejam. Já basta ter que se olhar, lá na Sé, para uma escultura escura, de uma mulher gorda e nua, pendurada no telhado de uma casa, com trejeitos de sereia, mas olhar de moreia.
 

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