O cinema São Luiz - Arthur Carvalho

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13/01/2010

O cinema São Luiz - Arthur Carvalho

13/01/2010
O cinema São Luiz - Arthur Carvalho

Publicado no Jornal do Commercio - 13.01.2010

A reinauguração do Cinema São Luiz lavou o peito de todos nós, recifenses. Há muito que sua fachada tinha se transformado em mictório público do centro comercial da cidade. Como meu roteiro para o restaurante onde almoço passa pela frente do cinema, isso me causava constrangimento e até revolta. Eu remontava às suas glórias e esplendor, onde assisti à maioria dos bons filmes de minha juventude, e batia a nostalgia.

Inaugurado em 1954, o São Luiz logo se transformou em ponto de encontro obrigatório da moçada, nos domingos à tarde. A primeira sessão da matinê era, geralmente, às 13h30. Homem só entrava de terno, e mulheres, chiquérrimas. Depois da sessão, delicioso sorvete de fruta no Gemba (linda sorveteria com direito a orquestra cujo dono japonês, se suicidou), na mesma Rua da Aurora, perto da Imperatriz, ou lanche na Helvética. Na calçada, defronte do São Luiz, à margem do Capibaribe, o "quem me quer" com meninas e rapazes desfilando, passeando, namorando, paquerando. Ao anoitecer, o footing se transferia e se prolongava até as 22h, na Praça do Derby, com alguns motoristas pilotando carrões importados, inclusive da marca Citroën, com fama de ser o automóvel de maior estabilidade do mundo, e a fábrica, segundo a lenda, oferecendo prêmio a quem conseguisse "virá-lo" ou "capotá-lo". Um certo capitão do Exército, de cabeleira prateada, tez bronzeada e exímio dançarino do Internacional, conquistou muitos "brotinhos", às custas do seu negro Citroën, o mesmo acontecendo com meu saudoso amigo "Cuca", residente na Gervásio Pires, sócio-diretor do Cabanga e dono do lendário armarinho de miudezas A Floresta, estabelecido na Rua Nova, a bordo do Studebaker Land Cruiser conversível, azul-turquesa, pneus faixa branca, capota arriada.

Episódio tristemente famoso da matinê do São Luiz foi o da mulher picada por uma serpente no gramado de frente ao cinema. Ela estava sentada, com o companheiro, cubando o movimento, sentiu uma espetada nas nádegas. Pensou que fosse espinho e deu um grito. Os minutos se passando, ela ficando roxa, sem ar, foram para o pronto-socorro, naquela época na Fernandes Vieira, onde morreu. Ataque de cobra coral, casco de burro, como no caso, é veneno letal de efeito fulminante.

Telefonei para uma garota, hoje respeitável e solitária viúva, convidando-a para assistir Shane, na matinal domingueira do São Luiz, crente que abafava, porque nos idos de 50/60 não havia programa mais charmoso - senha para flerte. Ela me deu o fora: "Muito obrigado, mas não posso ir, já tenho compromisso." Os anos se passaram - e bote anos nisso -, estou num casamento, no pátio do convento de Santa Teresa, em Olinda, sorvendo minha taça de champanhe, ela surge, lindíssima, com uma comadre minha, para, olha nos meus olhos, enigmática: "Bem que podíamos ter sido marido e mulher!" "Como assim?" - me espantei. "Lembra-se daquele seu telefonema para ver Shane, no São Luiz?" Claro que me lembrava, como não? "Meia hora antes eu tinha recebido o mesmo convite do meu atual esposo. Você se atrasou trinta minutos..."

Naquela noite, aprendi a grande, misteriosa e eterna lição de que tudo tem seu tempo certo e as coisas acontecem como e quando têm que acontecer. E penso muito nisso ao tomar decisões importantes. A reforma do São Luiz demorou mas chegou. Talvez na hora exata, antes do desabamento do imóvel por falta de conservação, de se transformar em abrigo de mendigos e covil de assaltantes.

Quem deve contar melhor a verdadeira história do São Luiz é Alex, que, no auge da tradicional casa de espetáculo, assinava a coluna mais lida e abalizada do Estado sobre cinema, neste JC, com o pseudônimo de Ralph. Outra autoridade no assunto seria o ensaísta André Carneiro Leão, que também fez sucesso na imprensa pernambucana comentando a sétima arte.

De parabéns Lula Cardoso Ayres Filho pela bela reforma. Constatei isso, visitando a obra, com ele. Gol de placa do governador Eduardo Campos.
 

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