O centenário de Vitalino - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

Notícias

26/06/2009

O centenário de Vitalino - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

26/06/2009
O centenário de Vitalino - Gustavo Henrique de Brito Alves Freire
Publicado no Jornal do Commercio - 26.06.2009
 
O dia 10 de julho assinala, no calendário cultural pernambucano de 2009, o ápice das comemorações pelo centenário de nascimento desta figura humana de rara sensibilidade que foi o caruaruense Vitalino Pereira dos Santos, mais conhecido como Mestre Vitalino.

A precocidade de Vitalino começou em 1915, quando aos 6 anos esculpiu a sua primeira obra, O caçador de gato maracajá. Filho de pai agricultor e mãe louceira, sua curiosidade o levou a moldar na argila os próprios brinquedos, aproveitando as sobras da produção de panelas, jarros e mealheiros da mãe, já que os brinquedos de plástico eram caros demais.

Na juventude, aprendeu a tocar o pífano e, ao longo da vida, universalizou no barro o cotidiano do nordestino. Por volta da década de 50, se mudou para o Alto do Moura, a 8 km do Centro de Caruaru, e ali plantou a semente do que mais tarde se tornou o “Principal Centro de Arte Figurativa das Américas”, segundo a Unesco.

Pai de 18 filhos, dos quais somente 5 “vingaram”, Vitalino faleceu jovem, em 1963, de varíola, com apenas 54 anos. A casa onde viveu e trabalhou virou museu, inaugurado em 1971, administrado por seus descendentes.

Deixou seguidores que souberam honrar o seu legado, desde o filho Severino e o neto Elias, até Manuel Eudócio, 22 anos mais jovem (com obras como Noivos a cavalo, Quadrilha junina, Boi) e Luiz Antônio (Funcionário da Celpe consertando poste de luz), ambos em atividade, Zé Caboclo e Manoel Galdino (genitor de Luiz, este famoso pelas curvilíneas mulheres de vestido e chapéu combinando), estes já falecidos.

Há ainda na família Zé Caboclo, as filhas Marliete e Socorro (com suas impressionantes miniaturas), fora Carmélia (e o seu Quarteto musical de santos), os filhos Antônio (Sala de aula dos bichos) e Paulo (Jogo de damas), além dos netos Emerson (Ariano Suassuna na cadeira de balanço) e Amanda (Colheita do caju). Na família Manuel Eudócio, há os filhos Luiz Carlos (com suas cenas do cotidiano, não raro em tamanhos incomuns) e Ademilson (com sua Bodega), além da nora Jandira (hábil nas miniaturas).

Bem se percebe, graças a Vitalino, o artesanato de Caruaru cresceu e apareceu, sendo hoje respeitado internacionalmente, exportado para diversos países. Há colecionadores fiéis, e humildemente me incluo entre eles, espalhados por todas as partes, inclusive, estrangeiros.

Muito a propósito, a 10ª Fenearte será inteiramente dedicada à memória e ao conjunto da obra de Mestre Vitalino. A expectativa, por exemplo, quanto ao Salão de Arte Popular, vitrine de premiação do evento, é a maior possível.

A Fenearte, contudo, há de ser apenas uma parte de algo muito mais significativo e duradouro. Felizmente vem sendo esta a orientação seguida pelo governo Eduardo Campos para o fomento às atividades culturais, como bem denota o comparecimento maciço de público às edições de 2007 e 2008 da Fenearte.

A história ensina que um povo que não valoriza a sua própria criação artística está fadado, inexoravelmente, à mediocridade em todos os sentidos. A julgar, porém, pelo carinho dos pernambucanos com a Fenearte, é improvável, para se dizer o mínimo, que seja este, um dia, o caso do Leão do Norte, berço, dentre outros, de Mestre Vitalino.

Voltar